ILUSTRADO
Sábado, 30 de Agosto de 2008, 14h:34
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ARTE CONTEMPORÂNEA
A morte mais sutil em Nuno Ramos
Neste domingo é a última oportunidade para conferir o artista e suas instalações na galeria do SESC Arsenal
Hoje, domingo, é o último dia para conferir a exposição Lâminas de Nuno Ramos no SESC Arsenal. O artista contemporâneo esteve em Cuiabá e promoveu um bate-papo com artistas e interessados na arte contemporânea. Daqui ele segue para Belo Horizonte onde apresenta o tema da morte que ficou muito pesado nas últimas mostras de Nuno Ramos este ano, diz ele mesmo. Na exposição que apresentou na Funarte de Belo Horizonte, uma performance filmada trazia duas atrizes empenhando foices (o signo que já remete à figura da morte, tanto faz se ela joga xadrez com um cavaleiro no filme o "Sétimo Selo", de Bergman, carregando o símbolo ou não) sobre caixas de som e um monte de feno. Já na mostra "Fala", no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, na obra "Bandeira Branca" ficavam urubus numa espécie de viveiro convivendo com esculturas que remetiam a tumbas de mármore e toras de areia socada, tendo ao fundo canções - uma delas, a que deu título à obra. Tudo isso sem citar o nome de outra instalação: "Monólogo Para Um Cachorro Morto" - nela, num vídeo, o artista representa o que seria o enterro simbólico de um animal atropelado ao som do texto homônimo ao nome da obra, também lapidado em grossas lâminas de mármore. "Foda-se a morte, estava muito carregado", diz agora Nuno Ramos, e por isso a exposição que ele inaugura amanhã (30) no Galpão Fortes Vilaça chama-se "Fodasefoice". O título da mostra e seu jogo de palavras são a chave do literal ou literário para se chegar a esse sentido. As palavras são sempre caras a Nuno Ramos (elas estão em suas obras e ele também está sempre escrevendo - tanto que no próximo dia 25 lança outro livro, "Ó (Iluminuras)", de ficção -, mas nessa exposição atual no espaço da galeria, elas estão apenas no título e faladas no mesmo vídeo que ele apresentou em Belo Horizonte, mostrado agora novamente. Ao mesmo tempo, na sala enxuta de sua mostra no galpão, estão apenas três esculturas feitas em granitos e vidros atravessadas por tubos, cada um deles contendo misturas de líquidos. O tema forte é, afinal, "a incrustação", diz o artista. Na ação concisa e pontual de Nuno Ramos, portanto, faz prevalecer uma questão formal. A forma da foice não é aparente, mas as esculturas derivam de um sistema de combinação de duas retas e duas curvas. Tendo cada uma delas um furo, são interceptadas por tubos que carregam a mistura de líquidos improváveis (petróleo + coca-cola; vinagre + vaselina; formol + soro fisiológico). Eles se juntam e "vêm com mais explicitude" no sistema de incrustações de Nuno Ramos (num veio de pesquisa de "dubiedade da aparência do vidro e dos fluidos", como escreveu o crítico Rodrigo Naves, realizada desde sua grande exposição no Instituto Tomie Ohtake em 2006): matérias tão díspares colocam o sentido de morte e vida juntos; as formas e materiais se fundem uns nos outros, assim como as palavras no jogo proposto no título da exposição. (Com assessoria)