Na segunda-feira, Mato Grosso deu adeus ao seu último coronel político. Às vésperas de completar 90 anos morreu um dos fundadores da União Democrática Nacional (UDN) no Estado, líder político de Nossa Senhora do Livramento e pecuarista, Osvaldo Botelho de Campos, ou melhor, Nhonhô Tamarineiro. Nhonhô Tamarineiro ajudou a escrever com os conceitos da época, importante página política mato-grossense, pois mesmo em se tratando de prática nada convencional a democracia dos idos de 1950, 60 e 70, época dos famosos currais eleitorais, ajudou a construir o sólido estado democrático de direito brasileiro. Homens do quilate do agora saudoso Nhonhô Tamarineiro se agrupavam em partidos políticos aos quais demonstravam absoluta fidelidade, não fraquejavam quando perdiam as eleições e sabiam se manter na oposição, coisa rara nos dias atuais. A fidelidade de Nhonhô Tamarineiro ao seu grupo udenista era a mesma que se via no PSD e PTB, que dominavam o cenário político mato-grossense. A fertilidade da convicção partidária não permitia vacilo nem adesismo. Essa prática política era fundamental na fiscalização dos atos dos ocupantes dos cargos executivos por parte da oposição parlamentar e dos dirigentes partidários, que tinham vozes e eram respeitados. A representatividade partidária nos primórdios da democracia após a ditadura de Getúlio Vargas tem bom espelho em Nhonhô Tamarineiro, que nunca exerceu mandato eletivo nem se candidatou, mas participava do processo político na condição de delegado da UDN de Nossa Senhora do Livramento junto ao Diretório Regional, onde pontilhavam os nomes de José Garcia Neto e Joaquim Nunes Rocha. Aprendizado democrático se faz na prática eleitoral, no companheirismo entre correligionários, na defesa dos postulados do partido. Esses princípios, conscientemente ou não eram praticados por Nhonhô Tamarineiro e seus pares de todas as vertentes políticas. Mato Grosso deve muito aos homens que lançaram as sementes da democracia sem seu fértil solo. As lutas de Nhonhô Tamarineiro por suas convicções soavam como ordens aos ouvidos de seus correligionários no poder e como sinal de advertência aos adversários da UDN que a derrotavam nas urnas. O tempo se encarregou de esculpir a moderna democracia de agora sem os vícios do ontem. Porém, o aprimoramento do regime não foi capaz de ensinar a jovens políticos o respeito partidário, que é a base estrutural dos regimes democráticos. O último coronel da política de Mato Grosso leva para o túmulo o lirismo de um período em que os políticos nasciam e morriam no mesmo partido e não se curvavam aos donos do poder. O legado de Nhonhô Tamarineiro é a democracia que a classe política mato-grossense precisa conhecer melhor para que possa praticá-la de cabeça erguida. O tempo se encarregou de esculpir a moderna democracia de agora sem os vícios do ontem