No final da semana passada, o narcotráfico revelou uma de suas piores faces: a utilização de bebês para fazer a droga boliviana entrar no Brasil. Esse crime transnacional foi descoberto pelo Grupo Especial de Fronteira (Gefron) nas imediações de Porto Esperidião, cidade que é sede de município fronteiriço ao vizinho País. Policiais do Gefron descobriram e apreenderam mais de 1 kg de pasta base de cocaína envolta nas fraldas de dois bebês bolivianos que seguiam em um táxi da Bolívia, conduzidos de duas mulheres ainda não comprovadamente suas mães que foram presas e autuadas em flagrante. Esse fato desperta a atenção das autoridades de segurança para mais uma vertente da atuação do narcotráfico: o criminoso uso de bebês para o transporte de drogas. Essa situação cria mais um obstáculo nas relações binacionais na extensa faixa de fronteira mato-grossense, com 730 km de linha imaginária em área seca. Isso, porque o aparato policial terá que atuar com severa vigilância sobre crianças e bebês, o que também não deixa de ser fator complicador face a legislação brasileira. A fronteira cada dia se torna mais complexa. Há informações na esfera sigilosa de que narcotraficantes bolivianos e brasileiros estariam também se utilizando de comitivas de boiadas e de elementos infiltrados em marchas de movimentos de trabalhadores sem terra, para que a droga não seja interceptada e apreendida na faixa considerada de maior rigor na esfera da vigilância policial. Por maior que seja o saldo do combate ao narcotráfico apresentado pelos policiais do lado brasileiro, ele sempre estará muito aquém do volume de drogas que adentra ao País pela região oeste de Mato Grosso. Enquanto não houver um acordo binacional Brasil-Bolívia contra as ações das quadrilhas supranacionais, que seja um documento eficaz e transparente, toda luta contra esse tipo de crime do lado de cá da fronteira será o mesmo que a tentativa de se enxugar o piso com a torneira aberta. A audaciosa ação de se colocar pasta base de cocaína nas roupas de bebês mostra que para o crime transnacional não há pudor, limites nem respeito ao ser humano. Esse tipo de crime tem que ser combatido com todas as armas em toda sua cadeia criminosa e não somente na ponta, prendendo seus tentáculos que atendem pelo jocoso nome de mulas por serem transportadores de carregamentos. Mato Grosso não tem competência para propor ações de extraterritorialidade, mas o Estado precisa urgentemente acionar o governo federal no sentido de estabelecer acordo de atuação conjunta com a Bolívia, sob pena de se transformar num descontrolado corredor continental de cocaína e suas variações, tal a produção do lado de lá da fronteira, tal a facilidade para se adentrar ao Brasil, tal o consumo do lado de cá e as alternativas existentes a partir do território brasileiro para se alcançar outros mercados. Para o crime transnacional não há pudor, limites nem respeito ao ser humano