Editoriais
Quinta-feira, 17 de Maio de 2007, 21h:06
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Mistura fatal
Diante da primeira aceleração do número de mortes nas rodovias desde a freada registrada com o Código de Trânsito Brasileiro, a partir de 1998, o governo federal resolveu enfrentar o problema com um conjunto de medidas previsto para ser divulgado até o final do mês. A intenção é fazer com que o morticínio nas estradas deixe de ser visto apenas como problema de saúde pública ou simplesmente de trânsito, passando a ser encarado também como de segurança. Daí a importância de que as ações previstas, incluindo desde restrições até a proibição de venda de bebida alcoólica à margem de rodovias, mereçam um debate amplo. O que o país não pode é continuar encarando a matança nas pistas como natural, pois não é. Dados divulgados recentemente pelo Ministério da Saúde confirmam que o número de mortes em acidentes de trânsito no país aumentou 9% nos últimos três anos. O valor das perdas humanas é imensurável, mas o custo dos acidentes é estimado em nada menos do que R$ 22 bilhões anuais pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O montante seria suficiente para mais do que duplicar os desembolsos do Bolsa-Família, o maior programa social do governo federal, do qual cerca de 11 milhões de pessoas dependem para sobreviver. Por todas essas razões, o aumento no número de mortes e a maior gravidade dos acidentes exigem atenção emergencial do poder público. Infelizmente, uma das causas mais freqüentes de acidentes em rodovias - sejam elas federais ou estaduais, e mesmo nos perímetros urbanos - é a perversa associação entre consumo de bebida alcoólica pelo motorista e velocidade. Depois dos alertas feitos por parte do Ministério da Saúde, agora também o Ministério da Justiça estuda a possibilidade de restringir ou mesmo de adotar uma espécie de lei seca nos estabelecimentos comerciais à margem de rodovias. Intervenções oficiais, em qualquer área, como as previstas no chamado PAC da Segurança, precisam sempre ser vistas com alguma reserva. O Estado já interfere demais na vida dos cidadãos, que na maioria das vezes pouco ou nada ganham com esse tipo de decisão. Além disso, o risco de proibições excessivas é o de apenas dar margem a formas de burlar a lei, se não houver eficiência nos controles. Talvez por isso o Congresso venha se omitindo sobre o tema há várias legislaturas. Alguma coisa, porém, precisa ser feita nesta área, e já. A alternativa mais promissora, no caso, seria uma eficiente combinação de leis adequadas, rigor no controle e campanhas maciças de esclarecimento, que alertem para os riscos da combinação entre ingestão de álcool e volante. O Estado já interfere demais na vida dos cidadãos