Ponderado, habilidoso ao extremo. Nunca se deixou levar pelo entusiasmo do momento, sempre dosou o tom de sua fala e acima de tudo pautou sua longa vida pública pela honestidade e o extremado amor cívico. Seu legado de estadista ao Brasil deveria inspirar todo político bem intencionado. Antes da carreira que o projetou fez da advocacia e do Ministério Público verdadeiros sacerdócios. Atraído para a política, sua verdadeira e única paixão, exerceu mandatos nas duas casas do Congresso Nacional. Com visão privilegiada - que era uma de suas características - governou seu estado com competência. Sempre presente aos chamamentos do Brasil impediu ruptura institucional e evitou que a política de abertura política do regime de 1964 retrocedesse. Quando as forças de direita tramavam a derrubada do presidente João Goulart foi nome consensual para primeiro-ministro. Nessa função, de 7 de setembro de 1961 a 26 de junho de 1962 afugentou o golpe de estado que se urdia nos quartéis e nos diretórios dos partidos do conservadorismo. O regime parlamentarista não vingou pela tradição presidencialista brasileira, mas enquanto esteve à frente do país, o ordenamento jurídico e institucional foi preservado. O povo estava nas ruas querendo eleição direta para presidente e a resistência do poder a essa manifestação deixava claro que esse clamor não sensibilizaria o generalato. Com paciência de monge beneditino, sabedoria milenar chinesa, força de gigante e a obstinação dos que não se rendem, assumiu a liderança oposicionista composta por grandes nomes a exemplo de Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Leonel Brizola, Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva, Teotônio Vilela, Mário Covas e outros, aceitando disputar a Presidência pelo voto indireto emanado do Colégio Eleitoral. Assim, vitorioso na disputa sem cheiro de povo, abriu passagem ao restabelecimento da normalidade democrática. Uma diverticulite o levou à mesa de cirurgia. Vítima de infecção generalizada fechou os olhos para sempre em 21 de abril de 1985. A solenidade de posse para torná-lo primeiro presidente civil desde a deposição de Jango Goulart em abril de 1964, não aconteceu. Sua morte chocou o Brasil e levantou temores de que os militares poderiam se recusar a entregar o Alvorada ao vice-presidente José Sarney. São João del-Rei sua terra nas montanhas de Minas Gerais e o Brasil como um todo celebram hoje o primeiro centenário do nascimento desse grande vulto que escreveu singular página da política brasileira das últimas décadas. Sua memória é cultuada com o respeito que se deve aos grandes vultos heroicos que construíram os alicerces da brasilidade. Um homem com a têmpera do presidente da Republica doutor Tancredo de Almeida Neves não morre e se perpetua em seus exemplos. Sua memória é cultuada com o respeito que se deve aos grandes vultos heroicos