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Editoriais
Quarta-feira, 12 de Maio de 2010, 20h:36

Escravatura

Dolorosa página das relações humanas foi o período escravagista brasileiro, quando seres humanos eram tratados como se fossem objetos ou animais. A violência constante perpetrada contra os negros capturados na África e trazidos para a então Colônia portuguesa e posteriormente Império do Brasil fazia fortunas dos senhores de engenho e de outras atividades, mas não resistiu aos apelos populares sendo extirpada pela Lei 3.353 - conhecida por Lei Áurea - aprovada em duas votações pelo Senado e sancionada pela Princesa Imperial Isabel. A resistência do poderio econômico, da aristocracia e da classe política ao fim da escravatura não suportou a voz das ruas e o convicto posicionamento dos abolicionistas. Gradualmente a longa escravatura ruiu. O desmonte da barbárie contra os negros começou com a Lei Eusébio de Queirós, em 1850; prosseguiu com a Lei do Ventre Livre, em 1871; avançou com a Lei dos Sexagenários, em 1885; e se consumou em sua plenitude há 122 anos com a Lei Áurea, que perpetuou o nome da Princesa Isabel, dita a Redentora. Mato Grosso também deixou impressões digitais na escravatura, com suas senzalas, açoites, estupros e suas penas capitais. Tanto quanto o conjunto federativo, o Estado tem uma dívida moral com a raça negra que exige muitas ações e o passar do tempo para que seja resgatada. Paralelamente aos erros históricos de Mato Grosso um ilustre mato-grossense foi figura destacada na abolição da escravatura, fato esse que serve como bálsamo na grande ferida moral na história do Estado. O engenheiro civil poconeano Manoel Esperidião da Costa Marques foi o principal redator da Lei Áurea; Costa Marques era visionário com influência na corte - mais precisamente sobre a Princesa Isabel – e planejava construir uma ferrovia ligando a região de Vila Bela da Santíssima Trindade ao porto de Santos. Esse ilustre personagem morreu vítima de malária e para reverenciar sua memória a vila de Porto Salitre recebeu o nome de Porto Esperidião. O passado nebuloso do Brasil e Mato Grosso não pode se apagar da memória coletiva, para que nunca mais a humanidade patrocine tanta ignomínia da prevalência de raça sobre raça. O Estado tem que se penitenciar por seu papel no passado, sem que isso o impeça de reconhecer os méritos de Costa Marques. Ainda sobre escravatura, no passado, Mato Grosso foi muito injusto com os negros de Vila Bela da Santíssima Trindade, que foram abandonados na fronteira com a Bolívia quando da Capital se transferiu para Cuiabá. A fibra desse povo não o deixou fraquejar, o que assegurou a territorialidade brasileira naquela região. No presente a injustiça é outra: os órgãos agrários não conseguiram a regularização fundiária de todas as áreas quilombolas reconhecidas como tais. Felizmente a escravatura terminou. Lamentavelmente descendentes de escravos lutam pela terra numa terra onde exatamente o que mais sobra é terra. “Mato Grosso também deixou impressões digitais na escravatura, com suas senzalas, açoites, estupros”

Edição EDIÇÃO 16959




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