Mato Grosso mais uma vez toma conhecimento do pernicioso casamento de figuras da iniciativa privada com personagens do governo para lesar o erário público e causar danos ao meio ambiente. Ontem, a operação São Tomé desencadeada pela Polícia Judiciária Civil iniciou o cumprimento de 18 mandados de prisão temporária contra cidadãos e 19 de busca e apreensão em locais de trabalho dos mesmos. Na relação dos presos e procurados figuram os servidores da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), Jackson Monteiro e Roselayne Laura da Silva Oliveira; o tabelião em Peixoto de Azevedo, Antonio Guedes Ferreira; agrimensor, engenheiros florestais, advogado, empresários e laranjas. Esse quadro, tachado de quadrilha pelas autoridades policiais, promoveria grilagem de terra para esquentar a comercialização irregular de créditos de madeira no Nortão. A atuação do grupo teria começado em 2007 e desde então era investigado - e movimentado R$ 3 milhões com a venda irregular de 1.200 carretas de madeira em operações que envolveriam madeireiras e laminadoras em Cláudia, União do Sul, Marcelândia, Tapurah, Pontes e Lacerda e outros municípios. Os números apresentados pela Polícia Civil atestam a atuação do grupo e quanto a isso não cabe questionamento. Porém, a pergunta que se faz é sobre a morosidade para se estancar a atuação criminosa dos cidadãos agora presos ou foragidos. A Sema sabia da prática dos crimes, mas não conseguiu impedi-los antes que suas consequências ambientais alcançassem o patamar citado na operação São Tomé, de 1.200 carretas de madeira derrubada criminosamente. A Sema sabe que esse tipo de ação criminosa somente se torna possível com a conivência de servidores de seus quadros, como demonstra a operação São Tomé. Mesmo assim, sua reação foi extremamente lenta, o que permitiu o avanço da motosserra sobre a mata em área de grilagem. Mato Grosso precisa modernizar sua política ambiental na área da fiscalização e atuação. Não se concebe que grupos criminosos ajam por longo período devastando áreas com vegetação primitiva sem que os satélites a serviço do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (INPE) detectem tais desmatamentos. Também não se concebe que em plena era do uso massificado e obrigatório do GPS no setor agrário, alguém consiga burlar o emaranhado documental exigido pelo Estado para titulação de propriedades rurais, ainda que para tanto tenha a seu serviço ou em conivência cartorário disposto a lavrar ou registrar escritura dita fria. São Tomé mostra que os crimes agrários e ambientais permanecem irmãos siameses em Mato Grosso, onde caminham lado a lado desafiando a lógica da fiscalização em todas as suas esferas. Quando os presos temporários da operação em curso ganharem liberdade deixarão rastros de destruição que nunca serão ressarcidos financeiramente nem resultarão em privação de liberdade com penas compatíveis com os crimes praticados. Esse cenário tem que mudar. São Tomé mostra que os crimes agrários e ambientais permanecem irmãos siameses em Mato Grosso