O vento frio, forte e cortante não quebrava o silêncio nos contrafortes do Monte Bastione. Nada se ouvia nem se via no começo da tarde de 16 de setembro de 1944, naquele canto da Itália ocupado pelo Exército Alemão. A enervante monotonia que antecedia o batismo de fogo da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi rompida pelo grito seco do oficial comandante ao ver a primeira movimentação da tropa inimiga: fogo! Naquele momento os pracinhas mato-grossenses entraram em combate contra o nazismo ajudando a escrever com sangue e amor patriótico uma importante página do heroísmo militar do Brasil. Transcorridos exatos 65 anos da rendição incondicional do inimigo alemão e italiano, os sobreviventes da campanha da FEB na Itália celebram hoje o Dia da Vitória. Em Mato Grosso, de onde embarcaram 118 combatentes, somente 14 estão vivos; seis morreram no teatro de guerra e os demais tombaram no Brasil em tempo de paz. Em suma não há reconhecimento oficial compatível com o feito dos pracinhas mato-grossenses e até mesmo a associação que os congrega agora somente existe de direito, porque de fato foi extinta por falta de apoio público. Quem luta para manter a unidade do que restou da tropa combatente e preside a Associação dos Febeanos no Estado é o pracinha Feliciano Moreira da Costa. Quem são os bravos febeanos mato-grossense, como vivem e quais homenagens a FEB recebeu em Mato Grosso? Os 14 remanescentes formam um grupo de octogenários e nonagenários acometidos por diabetes, cegueira, deficiência física que os impede de caminhar, problemas cardíacos e pulmonares. Vivem basicamente em Cuiabá num conjunto habitacional a que tiveram acesso e outros residem em Várzea Grande, Rondonópolis, Poconé e Juína. A gratidão oficial a eles se resume em quatro homenagens: o Estádio Luiz Geraldo da Silva, o Geraldão, em Cáceres, recebeu esse nome para reverenciar a memória do sargento Luiz Geraldo da Silva, morto em combate; a Avenida da FEB, em Várzea Grande; um busto hoje ao lado do conjunto onde residem em Cuiabá e que anteriormente foi colocado numa praça do bairro do Porto, em Cuiabá; e o nome do Distrito de Paz de Monte Castelo, no município de Glória DOeste (Monte Castelo foi palco de uma das grandes batalhas da FEB na Itália). Mato Grosso é injusto com os febeanos e os trata à distância. Autoridades e povo teimam em desconhecer ou desqualificar o heroísmo de seus soldados na Itália, onde contribuíram para derrotar o nazismo e o fascismo que ameaçavam o mundo livre. História não se escreve com o fígado e soberania não se conquista ao sabor do vento. Que hoje, na solenidade militar em Cuiabá os remanescentes da FEB pisem com orgulho o solo que defenderam juntamente com irmãos de farda do mundo inteiro. Ao pracinha Feliciano e aos seus pares a gratidão e o reconhecimento do Diário, porque este Jornal entende que para se chegar ao futuro é preciso viver o hoje conquistado no ontem. "História não se escreve com o fígado e soberania não se conquista ao sabor do vento"