ECONOMIA
Sábado, 31 de Maio de 2008, 13h:36
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CRISE DE ALIMENTOS
Potencial e gargalos
Na encruzilhada, mas de olho no apogeu. É assim que o Estado se encontra prestes a se tornar o maior fornecedor mundial
MARCONDES MACIEL
Da Reportagem
Terra fértil, clima excelente, grande potencial madeireiro e solo rico em riquezas minerais. Com vantagens comparativas em relação às melhores regiões do Brasil para se plantar e produzir, Mato Grosso emerge como o novo celeiro capaz de suprir o mundo com alimentos. Porém, o futuro próximo e invejável esbarra em fatores alheios a excelência em produzir que é feita da porteira para dentro e que encobrem o céu de brigadeiro do setor produtivo: a pressão ambiental e fundiária, falta de logística e política ao setor e nas amarras que impedem os avanços na área de biotecnologia. O gigante Mato Grosso está acordado, mas é preciso, mais, muito mais. Com a economia ancorada na madeira, soja e gado e com suas terras altamente valorizadas devido ao seu extraordinário potencial agrícola, Mato Grosso é hoje uma das regiões mais cobiçadas do Brasil para se investir. E não é pra menos: a produtividade é das mais altas para o cultivo de soja e o potencial madeireiro estimado está acima de 40 metros cúbicos por hectare, número de fazer inveja a qualquer região. Por isso o Estado vem sendo considerado a bola da vez para abastecer o mundo. De acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura, na safra agrícola 1989/1990 o Estado produziu 4 milhões de toneladas de cereais, fibras e oleaginosas e, no ano de 1998, possuía um rebanho bovino na ordem de 9 milhões de cabeças. Transcorridos 20 anos, Mato Grosso oferece à nação uma produção de aproximadamente 27 milhões de toneladas de cereais, fibras e oleaginosas e um rebanho bovino superior a 26 milhões de cabeças. É o maior produtor de algodão, soja, detém o maior rebanho bovino do Brasil e chega neste ano a recordes na produção de milho. Vale lembrar que toda esta produção se deu mediante fortes pressões sobre o setor produtivo rural pelas autoridades ambientais federais, sempre remetendo ao setor acusações de predadores ambientais e em função disso aplicando severas medidas de comando e controle, ressalta o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado (Famato), Rui Ottoni Prado. GARGALOS - Os produtores entendem que para Mato Grosso tornar-se o grande celeiro é necessário resolver questões cruciais, como os entraves ambientais, a deficiência da logística de transporte, os altos custos de produção motivados principalmente pelos preços dos fertilizantes e o problema fundiário. Sem resolver essas questões, Mato Grosso não conseguirá produzir alimentos para o mundo, lembra o especialista em Agronegócio Marcelo Duarte Monteiro, diretor executivo da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado (Aprosoja). Na opinião dele, Mato Grosso está numa situação no mínimo paradoxal. Ao mesmo tempo em que temos área produtiva e clima favorável, não temos logística, o país impõe restrições ambientais aos agricultores, os custos dos insumos são proibitivos e a estrutura fundiária não permite explorar as áreas com segurança jurídica. Para o especialista, a questão da liberação dos transgênicos ficou pequena diante de questões maiores como essas que estão sendo colocadas. A verdade é que a agricultura está numa encruzilhada, o futuro é incerto, apesar do imenso potencial que temos. Segundo o presidente da Aprosoja, Glauber Silveira, o setor produtivo de Mato Grosso vive um momento extremamente delicado ante uma série de deficiências que colocam em risco a atividade agrícola no Estado. Estamos à beira da bancarrota, alerta Silveira. Sem resolver esses problemas não vamos conseguir avançar e Mato Grosso ainda corre o risco de entrar em um período de estagnação. (Veja mais na C2)