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Cuiabá MT, Quarta-feira, 10 de Junho de 2026

CIDADES
Sábado, 15 de Agosto de 2009, 13h:07

APELIDAR

Em Cuiabá, poucos escapam da prática

Forma de se defender das chacotas dos forasteiros do sul do país acabou se tornando uma constante entre o povo local, de dar ‘nomes’ a todos

RENÊ DIÓZ
Da Reportagem
Seu Dito tinha um farto coqueiro no quintal de casa. Por isso, embora detestasse apelidos, passou a ser chamado “Dito Coco”. Tentou resolver o problema e não deixou mais uma fruta sequer no pé, mas começaram a chamar-lhe “Dito Coqueiro”. Cortou o tronco pela metade e, nas ruas, passou a ser “Dito Toco”. Decidiu exterminar o resto da planta, irritado com tanto apelido, mas o feito lhe rendeu um novo, “Dito Buraco”. Enfurecido, tapou o estrago no quintal, mas não escapou: reapelidaram-no “Dito Buraco Tampado”. Foi o cúmulo. Deve ter morrido furioso. Não se sabe até onde os apelidos perseguiram Dito Coco, mas sua lenda absurda é mais uma a ilustrar o inevitável. Em Cuiabá, políticos, personagens das ruas, artistas, gente de fora e qualquer viva alma de passagem certamente não escapa de um apelido que seja (veja quadro). Para todos, há uma vasta criatividade para epítetos cultivada pelo cuiabano ao longo de sua história de isolamento geográfico, influenciado pela herança cultural portuguesa, ou inspirado na simples interação familiar e de vizinhança numa cidade pequena. “O costume de apelidar não é exclusivo daqui, mas o que podemos creditar ao cuiabano é a espontaneidade disso. Essa arte, aqui, é mais intensa”, observa o radialista William Gomes, cuiabano de 59 anos e autor do livro “Dicionário Cuiabanês” (2002, sem editora). Ele explica que o apelidar logicamente ainda perdura, mas que já foi um hábito mais difundido e inusitado quando a cidade não passava de uma vila no coração do país, isolada por cerca de 200 anos dos grandes centros (São Paulo e Rio de Janeiro), com pouco mais de 50 mil habitantes e cuja interação entre as pessoas era, consequentemente, muito maior. Aliada a isso, cita Gomes, está a origem dos portugueses que aqui criaram raízes. A maioria deles vinha do norte ou nordeste de Portugal, onde perdurava o costume de agregar apelidos aos nomes das pessoas para melhor designá-las. Isso vem da era medieval, quando a maioria da população não possuía sobrenomes registrados em cartórios. Mas, nessa história, o isolamento no Centro Geodésico da América do Sul é novamente destacado por Gomes por ter provocado uma característica marcante no comportamento local: o cuiabano passou a usar apelidos jocosos para se defender dos forasteiros. Na maioria das vezes, estes aqui chegavam afrontando o linguajar dos locais e envergonhando-os de sua cultura com espírito de dominador. PAU-RODADO - Desta defensiva surgiu um dos apelidos mais aplicados aqui, o “pau-rodado”, que designa quem veio de fora. É uma alusão à madeira que, boiando no rio, vaga sem rumo empurrada pela correnteza ou pela chuva. Quem viveu esta realidade é o cuiabano legítimo Benedito Ramiro de Serqueira, 82 anos, nascido numa casa da praça da Mandioca, marco urbanístico inicial da cidade. Diante dos que vinham de fora, lembra seu Ramiro, o cuiabano geralmente se sentia reprimido e continha até seu jeito de falar. O linguajar é fruto de uma mistura especial de sotaques indígenas, português e espanhol que em muito definem o jeito do cuiabano criar seus apelidos e entoá-los, definindo se são jocosos, ofensivos ou não, frisa seu Ramiro. Autor do livro “Cultura Mato-grossense: Festas de Santos e Outras Tradições”, o cuiabano Roberto Loureiro, de 65 anos, aponta que os apelidos sociabilizam. Apesar de seu espírito caricaturesco, em Cuiabá, até hoje eles costumam ser aceitos sem ressentimentos. “Antigamente, os apelidos eram usados publicamente, apareciam escritos até nos jornais, como quando se referiam a algum político, secretário. O anormal era o cara não ter apelido”, lembra.

Edição EDIÇÃO 16959




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