CIDADES
Sábado, 21 de Janeiro de 2012, 13h:52
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SAÚDE
A esperança que vem do laboratório
Depois de 40 anos do início do flagelo da dengue no Brasil, uma vacina contra a doença entra enfim na fase final de estudos
KAMILA ARRUDA
Da Reportagem
Somente 40 anos depois de registrada a primeira epidemia de dengue no Brasil é que há esperanças de que uma vacina eficaz e segura possa ser disponibilizada contra uma doença que todos os anos vitima centenas de milhares de pessoas no país. Segundo levantamento do Ministério da Saúde, nos últimos dez anos cerca de 4,5 milhões de pessoas contraíram a doença no Brasil. Destas, 2.195 morreram. Sim, morreram por causa da simples picada de um mosquito. E, por trás disso, por causa da falta de saneamento básico, da falta de limpeza de quintais e terrenos baldios, enfim, por causa do desleixo geral. Dado que o desleixo não tem prazo para acabar, a vacina parece ser um caminho mais curto para o combate à dengue. Após anos de estudos, análises e testes, o laboratório Sanofi Pasteur já tem uma vacina em fase de experimento humano. Uma única dose promete combater os quatro tipos de vírus da dengue. As doses estão sendo aplicadas em voluntários de nove a 16 anos, faixa etária com maior incidência de casos. São moradores de cinco capitais brasileiras, que como Cuiabá possuem índice elevado da doença: Campo Grande, Fortaleza, Goiânia, Natal e Vitória. As crianças selecionadas e seus pais ou responsáveis legais têm acesso a diversas informações a respeito do estudo e assinam cerca de 40 páginas de documentos com os esclarecimentos sobre a pesquisa. Após estes certames burocráticos, todos os selecionados passam por avaliação médica para que a equipe se certifique de que elas não estão com nenhum problema de saúde. O experimento está em andamento desde outubro do ano passado e, a partir dele, a vacina entrou em processo de validação. Uma equipe médica está fazendo todo o acompanhamento dos pacientes. Enquanto eles estiverem em tratamento, qualquer comportamento anormal, como uma febre, será relatado aos médicos pesquisadores. Dois terços dos voluntários receberam a vacina candidata e os demais receberam doses de placebo, substância que não tem qualquer efeito no corpo. Todos os dados da pesquisa e do experimento serão analisados em conjunto com os de outros países latino-americanos e asiáticos, onde a dengue também virou uma epidemia. Outros testes foram feitos anteriormente e o medicamento tem se mostrado seguro. A imunização se dá em três doses, que devem ser tomadas de seis em seis meses. Em Campo Grande, por exemplo, 300 crianças já tomaram a primeira dose da vacina e nenhuma apresentou reação ao produto. Neste mês, mais 200 crianças devem ser imunizadas. Assim como todas as outras vacinas, ela é produzida com o vírus causador da doença, no caso o transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, mas em uma forma atenuada ou morta, capaz de preparar o sistema imunológico do indivíduo. Ao tomar a vacina, o corpo da pessoa passa a ser capaz de reconhecer o vírus e já produziu os anticorpos suficientes para combatê-lo. Além do Sanofi, outros laboratórios também vêm realizando pesquisas acerca da produção da uma vacina contra a dengue. A Fundação brasileira Oswaldo Cruz é uma delas, e começou recentemente a primeira fase de estudos clínicos. O presidente e diretor-geral do Sanofi, Oliver Charmeil diz estar muito confiante com o término dos estudos. Hoje, estamos muito entusiasmados por estar na etapa final de desenvolvimento clínico. Estamos confiantes de que seremos os primeiros a obter nos próximos anos uma vacina contra a dengue, que irá atender as necessidades médicas e mudar a vida de milhões de pessoas em todo o mundo, diz. Caso as expectativas sejam atendidas e a vacina aprovada neste último teste, o laboratório pretende colocá-la no mercado em 2014.