BRASIL
Quarta-feira, 03 de Março de 2010, 21h:50
A
A
PROGRAMA NUCLEAR
Brasil e EUA não se entendem sobre o Irã
Irã explora boa-fé de Brasil, China e Turquia, insinua Hillary Clinton durante entrevista
TÂNIA MONTEIRO e DENISE CHRISPIM MARIN
Da Agência Estado Brasília
Brasil e Estados Unidos expuseram ontem suas divergências sobre o programa nuclear iraniano Ao final de três horas de conversas com o chanceler Celso Amorim, a secretária de Estado americano, Hillary Clinton, insinuou à imprensa que o Irã está manobrando a boa-fé do Brasil, da Turquia e da China e defendeu a adoção de novas sanções contra a república islâmica no âmbito do Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas (ONU). Como sinal de que não se dobraria à pressão, Amorim insistiu em uma solução negociada e rejeitou a ideia de que o Brasil estaria sendo "enrolado" pelo Irã. O chanceler ouviu ainda o lobby da secretária em favor dos caças F-18 Super Hornet, da americana Boeing, para reequipar a Força Aérea Brasileira (FAB). "Estamos observando que o Irã vai ao Brasil, à Turquia e à China e conta histórias diferentes para cada um. Pessoalmente falando, só depois de passarem as sanções no Conselho de Segurança (é que) o Irã vai negociar de boa-fé", afirmou Hillary Clinton. "É possível ainda encontrar uma solução com base nos mesmos conceitos e nas mesmas ideias e preocupações que inspiraram o acordo? A nossa avaliação é que sim", rebateu Amorim, referindo-se ao acerto que prevê a troca de urânio iraniano por combustível nuclear. "Nós temos a nossa visão de que, de modo geral, as sanções têm efeitos contraproducentes." Horas antes do encontro de Hillary com Amorim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, comentou, ao final de uma solenidade, a posição brasileira em relação à questão nuclear iraniana: "Não é prudente encostar o Irã na parede. É preciso estabelecer negociações com aquele país. Quero para o Irã o mesmo que quero para o Brasil: usar energia nuclear para fins pacíficos. Se o Irã for além disso, não poderemos concordar". Em missão de convencer o Brasil a afinar sua posição com a de cinco potências nucleares - EUA, França, Inglaterra, Rússia e Alemanha - e apoiar as sanções contra o Irã, Hillary Clinton alertou o governo brasileiro sobre o fato de que, em um momento próximo, essa decisão terá de ser tomada. COM LULA A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, ficou cerca de uma hora com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ministros das Relações Exteriores, Celso Amorim, e da Casa Civil, Dilma Rousseff, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Ao deixar a reunião, o chanceler Celso Amorim contou que a conversa entre a secretária de Estado e o presidente Lula foi "agradável e interessante". Segundo relato de Amorim, vários assuntos foram tratados na reunião e o presidente Lula começou falando da Conferência do Clima. "Ele está disposto a continuar dialogando para o êxito da Conferência da COP 16, no México. O presidente Lula mencionou a importância de o presidente Obama (Barack Obama) continuar o diálogo com a América Latina, em especial com a América do Sul, citando o que ocorreu em Trinidad e Tobago", disse o ministro.