Nos últimos tempos a percepção da sociedade é a de que os vazios estão cada vez mais evidentes nas instituições públicas brasileiras. Em 1987 o jornal Correio Braziliense publicou na primeira página uma enorme fotografia onde aparecia um circo armado na Praça dos Três Poderes em algum protesto. O circo na foto foi enquadrado pelo fotógrafo cobrindo a cúpula do Senado. Prevaleceu a idéia de que o Congresso Nacional era um circo. Materializava ali o calvário do Congresso que completa 20 anos, e piora. Antes os escândalos e os desvios existiam, mas não apareciam como agora. Hoje a idéia do circo saiu da fotografia e inundou as páginas dos jornais, as telas de tv, as revistas e os sites no mundo todo. Nos estados o poder legislativo degradou-se a limites intoleráveis. Mato Grosso não é exceção. Teses pouco democráticas circulam na Internet defendendo a extinção das assembléias legislativas por inutilidade social. Ao se considerar que a rede de computadores é mais democrática do que a mídia convencional, por ela circulam teses com certidão de nascimento social. Nos municípios, as câmaras de vereadores estão no limite da tolerância coletiva. A de Cuiabá tem apenas 44,8% de aprovação (dados da pesquisa Cuiabá Nossa Casa 2007). A Assembléia Legislativa tem a confiança de 43%, o Congresso Nacional 42,9%, a prefeitura de Cuiabá tem 53,4%, o Poder Judiciário chega a 50,2% e os políticos foram amplamente reprovados, com 68,8% de desconfiança. Em contraponto, a família merece a confiança de 86,6% dos chefes de família cuiabanos, que são o público-alvo da pesquisa. Está bem claro que a sociedade percebe o que lhe convém e aponta o que não lhe convém. A simples análise das instituições de baixa confiabilidade mostra que o corporativismo e o afastamento dos legítimos interesses sociais minou a respeitabilidade de instituições muito importantes para a democracia como os poderes legislativos e o judiciário. O Ministério Público é bem avaliado, com 50,4%, porque aparece como um aliado dos interesses sociais. Esses vazios sociais estão crescendo na medida em que as instituições perderam a capacidade de compreender os anseios de uma sociedade pacífica em processo de rápida transformação. Mas as instituições não perceberam ou parecem incapazes de acompanhar a evolução social e continuam olhando para o próprio umbigo, não compreendendo que são financiadas pelo conjunto dos impostos pagos pela sociedade. Mesmo aquele excluído que bate no balcão de um órgão público e sai tratado como lixo, paga imposto a cada produto que consome, seja uma caixa de fósforo ou um prato de comida. O distanciamento corrói a credibilidade das instituições públicas e abre espaços para outro tipo de referência com maiores vínculos sociais, como o chamado Terceiro Setor, bem representado pelas organizações não-governamentais. Na realidade, estamos falando de um processo social evolutivo que não confia mais nas representações públicas e parlamentares. A física diz que não existem espaços vazios. O que significa dizer que na medida em que o corporativismo público e os cartéis empresariais, mais hora menos hora terão que cair na realidade, e pagarão um preço por isso, proporcional ao tempo de demora da percepção. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM
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