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ARTIGO
Quarta-feira, 29 de Maio de 2013, 22h:00

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Um tipo de enterro

No artigo anterior, por meio de “Relampiano”, tentei “desendurecer” mentes dos que não enxergam a delinquência juvenil em sua raiz. Medianos por excelência e vingativos por natureza, essas mentes apostam na redução da maioridade como solução para o problema. Hoje, continuo falando de juventude. De certa forma, de um crime, mas contra os que são obrigados a prestar o ENEM. Assim, se a poesia serviu para falar de infâncias roubadas, agora, o humor serve para tratar da falta de credibilidade no ENEM. E nem me venham com o recorde de inscrições! O ENEM é imposição. Outra vez, trato da redação. Para isso, resgato o programa Pé na Cova (Globo: 23/05), que teve a trama sustentada por dois eventos: 1º) exposição do esdrúxulo na correção das redações do ENEM; 2º) aprovação da lei dos trabalhadores domésticos. Destaco o primeiro. Antes, identifico as personagens: tudo gira em torno da família de Ruço, herdeiro de uma funerária. Darlene, sua ex-esposa, é a maquiadora dos defuntos. Odete Roitman e Alessanderson são seus filhos. A jovem faz filmes pornôs. Ele pretende ser vereador. Juscelino é o faz-de-tudo na funerária. Sua irm㠖 Luz Divina, completamente surtada – é a carpideira nos velórios. Adenoide é a empregada. Marcão é um mecânico que se traveste de Markassa. As irmãs Soninja e Giussandra – donas da carrocinha “Cachorras-Quentes” – sugerem ser garotas de programa. Todos são iletrados. O episódio começa com a chegada dos pacotes contendo redações do Enem para Alessanderson corrigi-las. Ele, por sua vez, aparentando ter mais o que fazer, passa a tarefa à mãe. Dada a sutileza das denúncias, transcrevo excertos dos diálogos: ALESSSANDERSON – (falando para os entregadores) “cês pode colocar os material aqui (na mesa) porque os neguim vai trabalhar na sala memo... Oh, mãe, presta atenção! Na correção das redação a gente ganha na quantidade, entendeu? Foi uma bocada que eu consegui lá no Partido. Eles tão pagando 2 real e 35 centavo por redação corrigida. Não quero ninguém de conversa, entendeu?” DARLENE - “Pode deixá. Vô bota todo mundo pra corrigi redação. Vamo faturá!” RUÇO - “Alesssanderson, aqui é uma funerária. Aqui não é um centro de corre... corrigi redação. Memo porque aqui ninguém sabe escrever (...)” Agora, eis os diálogos da cena em que as redações começam a ser corrigidas por Luz Divina, Juscelino, Markassa – “montada de professora” – e as duas irmãs: DARLENE (falando para os outros) - “Cês têm que ter muita concentração. Vão ganhá é na quantidade. Quanto mais redação corrigida, mais cês ganha. Quanto é que o Alessanderson falô que vai pagar por redação corrigida?” JUSCELINO – “30 centavo! Se eu corrigir mil redações dá pra tirar 300...” LUZ DIVINA – “Mil eu tiro de letra. Minha meta é corrigir dez mil redações. Nossa! Com três mil reais, eu fico louca (...)”. DARLENE – “...Cês lembra bem qual era o tema da redação? Vou repetir: ‘Discorra sobre os fluchos migratórios e sua importância para o Brasil’. Que é flucho?” LUZ – “É fluxo, Darlene. Fluxo migratório (...)” DARLENE: “ih, meu fluxo migratório nunca mais veio (...)” Entremeado à confusão com fluxo menstrual, Luz Divina lê uma redação que discorre sobre o fluxo migratório da “borboleta monarca”. Mesmo sem nexo com o tema, assim como receita de miojo e hino do Palmeiras, a nota atribuída é a máxima, e “com louvor!”. Do humor à realidade, o fato é que o ingresso nas universidades está imerso em injustiças. O mérito está enterrado. A consequência disso será esfregada na cara de todos nós. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Ciência da Comunicação-USP Prof. de Literatura-UFMT

Edição EDIÇÃO 16959




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