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ARTIGO
Terça-feira, 07 de Dezembro de 2010, 20h:56

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Um país cheio de complexos

Há termos de nossa língua com vários significados. “Complexo” – do latim complexu – é um desses. No sentido amplo, diz o Aurélio, trata-se daquilo que “abrange ou encerra muitos elementos ou partes; observável sob diferentes aspectos; confuso, complicado, intricado; grupo ou conjunto de coisas, fatos ou circunstâncias que têm qualquer ligação ou nexo entre si”; e por aí vai. Como termo que compõe uma expressão, sabemos da existência do “complexo cultural”, “complexo de Édipo”, “complexo de inferioridade”, de “superioridade”, “complexo vitamínico B-1”... Sabemos até do “complexo brasileiro”, ou seja, do “conjunto de rochas e terrenos que constituem o sistema arqueano na América do Sul”. Agora, mais do que antes, sabemos de detalhes da vida no “Complexo do Alemão”, que, na verdade, conforme pesquisa do complexo midiático, tratava-se de um suíço! Como aquele europeu – da Suíça – era branco, ficou sendo alemão; algo próximo da visão absurda de que todo japonês ou nordestino seja igual. Suíço ou alemão, o fato é que, ironicamente, para esse conjunto de favelas na “Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil” foram morar (verbo inadequado) os descendentes de africanos, pretos obviamente, rechaçados do longo e desumano sistema escravista. Em palavras mais adequadas, os pretos foram se equilibrar em “barracões de zinco, pendurados no morro”... do Alemão! Ou do Suíço! Dessa forma, não restando saída a esses brasileiros, de lá para cá, vivem “pedindo socorro, à cidade a seus pés”: pura ironia dos acidentes geográficos!!! Mas o país é surdo; quando ouve uma bela música, parece não compreender seu sentido. Há quem se recuse a ouvir “um soluçar de dor, um lamento triste” que “sempre ecoou”, fosse do “índio guerreiro” fosse do negro, que desde o início “entoou um canto de revolta pelos ares”. Contudo, se há uma recusa histórica de ouvir o clamor de um povo, chegou uma hora em que não foi mais possível fazer ouvidos moucos. Os olhos não deixaram. O espírito de Nero, o incendiador de Roma, parece que desceu, no Rio promovendo um show pirotécnico antes da hora da virada em Copacabana, a “princesinha do mar...” Junto com tantos “espetáculos” aleatórios, perturbadores da paz de uma elite, vieram rajadas de metralhadoras do lado repressor do Estado, que a muito custo se “organizou”, e do Crime organizado, desde o nascedouro, já há algumas décadas; aliás, também por ironia, um dos poucos itens organizados num país em que a maioria corre atrás da ordem e do progresso, mas não alcança muito mais do que uma bola de futebol que, indiferente às balas perdidas e achadas, não pára de rolar. E no meio do tiroteio, um povo aturdido, grita o mesmo grito de outrora: “Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes// Embuçado nos céus?” Por falar em céus, fico pensando no futuro – e muito breve – desse povo que tem tudo para ser abandonado à sorte. Se e quando os pezões e os misters “B”, “C” et alii, todos fugitivos do tráfico, voltarem – à francesa – ao Complexo do Alemão, será um deus nos acuda, principalmente, àqueles que mostraram seus rostos, acreditando na mídia invasiva, na polícia “cheia de boas intenções”, nos discursos de políticos, em Deus... Talvez seja a hora do adeus de tantos anônimos; pior: sem repórter com colete à prova de bala para cobrir mais uma fatalidade numa cidade onde o “Cristo Redentor” nunca cruza os braços, e mesmo em meio de fogo-cruzado, ele está sempre de “braços abertos sobre a Guanabara”, como que abençoando seus filhos... bem mais a uns do a outros, é bem verdade! *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16959




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