Longe vai o tempo em que o meio universitário vivia de polêmicas produzidas por pensamentos acadêmicos divergentes. Claro que hoje a divergência de pensamentos e práticas ainda é recorrente; o que quase não há mais é o estabelecimento de polêmicas em torno desses pensamentos e práticas. A ditadura do respeito às individualidades (no arcabouço do politicamente correto) já destruiu quase todos os espaços dos debates. Permissiva como tal, essa ditadura vai transformando universidades em individualidades. Essa tendência contemporânea bem pós-moderna vai corroendo o cérebro das universidades e tonificando o coração dos indivíduos que as compõem. Implantando-se esse processo de corrosão dos cérebros na academia, causador de uma apatia social impressionante e sem precedente, o que sobra aos resistentes é a tentativa, quase sempre frustrada, de mostrar a importância do restabelecimento dos debates, tanto os acadêmicos quanto os políticos. Nesse sentido, e sem sucesso nas tentativas de estabelecer pontuais debates acadêmicos, uma vez que interlocutores invocados fingem-se de estátuas, aproveito o calor da hora para expor minha opinião sobre as cotas para estudantes das escolas públicas. Na UFMT isso é pauta do dia. Reservas de vagas (ou sobrevagas) para estudantes que se autodeclaram negros e/ou índios já há. De chofre, afirmo: sou oponente a qualquer tipo de proposta de reservas de vagas. Motivo central: a CF/88, Art. 3º, Inciso IV, é explícita quando diz que se deve promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Se as letras da Constituição forem mortas, façamo-las viver. Num passado recente, além de outros e tantos argumentos políticos, quando se invocava a CF/88, era comum ouvir a seguinte resposta: temos uma dívida histórica com os negros e com os índios; precisamos pagá-la. Pergunto: pagamos? Claro que não; e com esses escapes de pseudoinclusão, que mais se parecem com esmolas, nunca se pagará. No limite, à lá cristãos arrependidos, podem-se fazer caridades com alguns eleitos para as cotas. Contudo, a maioria dos negros e dos índios (pobres) continuará exatamente onde e como está: excluída socialmente; afinal, a estrutura econômica que os exclui a bem do sistema continua intacta, inclusive com apoio sorrateiro de líderes de movimentos sociais. Mas isso parece não importar, desde que se exima da grande, difícil e necessária luta. Para isso, entra-se num jogo politicamente errado. Assim, os brasileiros de todas as cores não precisarão sequer de se misturar para uma eventual e necessária luta contra os reais pilares da desigualdade social. Basta uma reservinha de vagas e pronto. Isso se assemelha àquela esmola de quem se quer distância. Por sua vez, e para atrasar ainda mais o pagamento de uma dívida real, há quem aceite as tais reservas. Aliás, esmola tem ciclo completo: carência, alguém que pede, alguém que oferta o que sobra... Agora, para não haver luta que busque alterar a estrutura falida da educação pública, a lâmpada da genialidade é acesa pelo mesmo interruptor: vagas para alunos da escola pública. Se isso for aprovado, de saída, duas consequências explodirão: a) perpetuar-se-á a falência do sistema educacional; b) rebaixar-se-á ainda mais o nível do ensino superior até sua dissolução. Será que não temos forças para lutar pela qualidade da educação pública? Não é isso o que todos (brancos, negros, vermelhos, amarelos, rosados...) deveríamos fazer? *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Ciência da Comunicação/USP e Prof. da UFMT
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