ARTIGO
Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009, 20h:05
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VERA CAPILÉ
Tudo isso me envergonha muito
Estranha esta condição pelo que ficou exposto o caso do enfant gâté (equivale a uma criança mimada, pois eu fico zangada de ver quem escreve certos termos sabendo que alguns podem não entender), que logo de cara, na condição de falta de decoro por estar investido em um mandato, agride de maneira chula as mulheres de Cuiabá. Explico: o parlamentar de Cuiabá, ao ser questionado pelo flagrante em um ato criminoso (por ser a pessoa objeto da sua investida sexual um menor de idade), uma das fajutas justificativas foi de que ...todas as mulheres de Cuiabá sabem que eu não sou homossexual. Segunda idiotice: neste argumento já está incluso seu preconceito contra os homossexuais, como se isto fosse um crime. Pela sua lógica, se ele não é homossexual, estaria acima de qualquer suspeita, provavelmente com cetro de machão, o garanhão do momento. Tenho sérias dúvidas com a indefinição em atos falhos desse Casanova do Zero Quilometro. Mas não ficou só por aí, infelizmente, o delegado que atendeu o caso, em afrontoso preconceito e desprezo à lei, argumentou candidamente que fica descartado o ato central do flagrante (menor) porque como o travesti já vive em franca promiscuidade, então nada poderia se imputado por aquele uso de seus serviços. O delegado decidiu criar, não sei por quais motivos, uma nova jurisprudência, deletando o maior agravante exposto. São essas coisas que movem minha indignação: o preconceito feroz em todos os níveis. Contra as mulheres, contra a livre escolha sexual, contra a violência sexual com crianças e adolescentes, contra a pobreza, pois embora gostaria de chamá-lo pelo nome, o travesti estava trabalhando. Nesta hora, gente que não deve nunca ter dado duro na vida regateia para pagar, o que não deve fazer nas butiques da moda. Por outro lado, não concordo com a invasão de privacidade de pessoas, nem com o sensacionalismo que acaba servindo para desviar a atenção de outros problemas extremamente graves como a corrupção. Até servindo para envernizar a cara de tantos que não foram flagrados e conduzidos à execração pública em atos ímprobos, ilícitos e indecorosos em todos os aspectos. O que eu vejo nisso enquanto fato político é a caricatura da representação parlamentar nos últimos tempos no toma lá dá cá das negociatas políticas. A condição do travesti carrega uma trajetória que não interessou a ninguém refletir e encaminhar como responsabilidade pública. Seria normal um menor estar trabalhando em condição tão arriscada? A morte e a violência contra travestis e prostitutas que se acumulam ficarão impunes? A prostituição não é mesmo uma forma de trabalho? Acho que é! Como é tratada a prostituição e o trabalho infantil? Sou testemunha freqüentemente da quantidade de adolescentes que fazem ponto naqueles locais, em Várzea Grande e também aqui em Cuiabá. Chega a me dar dó, sentimento que acho não ser positivo. Precisamos abrir os caminhos de retomada da dignidade das pessoas envolvidas neste submundo. Submundo das drogas, só não sabe quem não quer. Caminho em que as pessoas envolvidas nestes lugares são vivos-mortos marcados para morrer da violência, da falta de solidariedade. Da falta de amor. Da falta de ética. Isso tudo sim, me dá nojo. Infelizmente tudo pode caminhar para as calendas da impunidade (o réu não é só esse vereador). Sinceramente eu me envergonho disso tudo! * VERA CAPILÉ é cantora e psicóloga