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ARTIGO
Segunda-feira, 25 de Março de 2013, 20h:45

LORENZO FALCÃO

Traduzir-se

Caetano está com sua turnê “abraçaço”, mas não escreverei sobre isso. Tradução é apenas o mote e veja se você consegue se lembrar qual é a cantora, segundo Caetano, que representa a mais completa tradução de São Paulo. Lembrar dessa metrópole brasileira me transporta para versos assim “uma parte de mim/é multidão:/outra parte estranheza/e solidão.” Também sei traduzir e às vezes ameaço entender de inglês e espanhol, mas o que eu queria mesmo era dominar o latim. Língua morta ou quase a caminho do cemitério. Quando se tornar inútil, se é que isso vai acontecer, há de servir para a poesia. Essa história de traduções de títulos de filmes é coisa divertida. Tem cada coisa... E não é que acaba de ser lançado um livro curioso que vai por aí??!! “Perdidos na Tradução” (Editora Belas Letras) é de autoria do professor e tradutor Iuri Abreu e explora curiosidades, algumas até criminosas, nesse sentido. São 288 páginas e deve propiciar leitura divertida. A primeira vez que me chocou essa conversa de tradução esdrúxula (sob determinados pontos de vista) foi ainda na adolescência. Assisti a um filme de 1969, de Sidney Pollack, que se chamava em português “A noite dos desesperados”. Meu espanto surgiu quando descobri o título original, em inglês: “They Shoot Horses, Don’t They?”. O título original remete a algumas cenas do filme que, no geral, narra uma maratona de dança durante a depressão americana, na linha ‘topa tudo por dinheiro’. Penso assim: toda tradução, até certo ponto, é uma traição e, além disso, reconheço que tradutores devem ter liberdade para usar (abusar, acho que não) das metáforas. Não me importo muito com isso, porque “uma parte de mim/é só vertigem:/outra parte,/linguagem.” Aqui em Cuiabá, nos bons tempos em que o sotaque cuiabano era muito comum, também se fazia traduções de títulos, segundo o cuiabanês. “Tubarão”, por exemplo, virou “O Petchão”. Já a antiga novela “O pulo do gato”, transformou-se em “O prisco do bitchano”. Voltemos ao “Perdidos na Tradução”. O livro vem dividido em capítulos: "A Maldição do Subtítulo", "Poesia Pura", "Liberdade Total", "Fiéis ao Original" e "Entregando o Jogo". Como já frisei, não chega a me aborrecer esses tropeços na tradução. O que me ofende, um pouco, é quando to assistindo a um filme dublado e um personagem está entrando num estabelecimento comercial e você vê a placa em inglês “supermarket”... aí vem aquela voz empostada e cretina da dublagem... “su-per-mer-ca-do”. Esse povo precisa entender/aprender que o óbvio é intraduzível! Vamos aos finalmentes, com alguns títulos que mereceram aparecer no livro, porque “uma parte de mim/pesa, pondera:/ outra parte/delira.” Para “Blade Runner”, que teria como tradução literal “O corredor da lâmina” (não serve mesmo pra língua portuguesa), ficou “Blade Runner – Caçador de Androides” (Brasil) e “Blade Runner-Perigo Iminente” (Portugal). Agora, um doce pra quem adivinhar o título original do filme “Giant”, que seria e foi “Gigante” em Portugal. No Brasil ficou “Assim caminha a humanidade”. É, os brasileiros são mesmo mais libertários que os portugueses nesse papo de traduzir nomes de filmes. “Annie Hall” repetiu seu título em Portugal, mas, no Brasil, virou “Noivo neurótico, noiva nervosa”. É isso, e mais um muito obrigado ao Ferreira Gullar, poeta do qual usei alguns versos do poema “Traduzir-se”, e também o título do poema. LORENZO FALCÃO é editor do Ilustrado do Diário e do site tyrannusmelancholicus.com.br e escreve neste espaço às terças-feiras

Edição EDIÇÃO 16966




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