ARTIGO
Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013, 20h:14
A
A
BENEDITO PEDRO DORILEO
Sarau Cuiabano
O solar do comendador Henrique José Vieira, à margem do ribeirão Prainha, nos primeiros anos do século XX, era o ponto de reunião das moças cuiabanas, que ocupavam os salões do pavimento superior. Zulmira Canavarros, a egéria cuiabana, lá estava a ministrar aulas de piano, tendo assíduas alunas como Balbina Garcia e Felenila de Freitas; não havia limite de tempo nem grade horária, confundiam-se elas na permanente alacridade, cuja convivência era motivada pela boa cultura. Houve festa de despedida de Pitu Zulmira da vida de solteira, em fevereiro de 1915 nesse sobrado. As filhas do comendador e de dona Antônia Joaquina Monteiro compunham a recepção, enquanto Anna Pinto e Francisco Inácio Filho revezavam-se ao piano, vendo deslizar no largo espaço pares felizes, com exibição da fina costura. A noiva encerrou o sarau aplaudida e emocionada ao lado do noivo Danglars Canavarros, após oferecer os acordes de uma valsa de Chopin. O sarau, relativo ao anoitecer pela etimologia, compreende encontro festivo para ouvir música, declamar, dançar, ocorria com frequência na sociedade cuiabana. O mais antigo grupo artístico, partícipe da melhor qualidade musical foi o Conjunto Serenata. Vinha da década de 1920, quando foi fundado o Centro Artístico, executando especialmente valsas, chorinhos e rasqueados. Liderado pelo musicista Antônio Garcia (Tóte), primeiro violino e compositor, contava com Hermínio, Gigo, Nâmi Ourives, Dante Miraglia, Nilson Constantino, Odare Vaz Curvo, Vicente, Odenir, Xilo, Paulito Camargo e Hélio. Outros participavam como Domércio e José Rosa, Tunta, Nanito, Honório Simaringo. Apresentações especiais com Zulmira Canavarros e por vezes Dunga Rodrigues ao piano elevavam o tom da beleza musical. Quando organizamos a Banda Sinfônica na nossa UFMT, na década de 70 do século passado, depois Orquestra Sinfônica, projetávamos atingir a música popular e agasalhar a seresta e os entoadores da viola de cocho. A preocupação inicial foi oferecer a Cuiabá e a Mato Grosso música erudita com obras de todas as épocas e nacionalidades, em consonância com o espírito universal, marco inicial próprio da universidade. São a Orquestra Sinfônica ao lado do Coral Universitário instituições musicais primeiras do Estado. A Escola de Música constou de projeto para articular com o ensino médio; percebia-se que as escolas, ora de estudos clássicos ou técnicos, ora preparatórios para o acesso ao nível superior, desprezaram a música desde o ensino fundamental. Antes de ensino obrigatório, como obrigava o Colégio São Gonçalo, que celebra os seus 120 anos de existência, fez desfilar nas ruas de Cuiabá uma banda de música composta por índios bororos, no dealbar do século XX. Inicialmente, em nível técnico para formar profissional em área específica, sejam o instrumentista, o cantor ou o técnico de fanfarra. Teria a incumbência de divulgar a música em todos os gêneros, estimular novos valores e movimentar grupos musicais, a par de contribuir para a formação em nível superior. Tudo pronto em 1982, quando o MEC impede o andamento sob alegação de conter despesas e proíbe novas admissões de pessoal. Entretanto, prevaleceu o intento: a escola de música é realidade na UFMT. Na lembrança do sarau cuiabano, ficou na memória a música suave e alegre, que chegava ao samba-canção, mas não ao sambão, sob marcação do surdo. Ouvia-se o agitar das soalhas do pandeiro. Não tinha compromisso com sistemas eletrificados de ampliação do som. O Conjunto Serenata nas apresentações, como no Maksoud Plaza Hotel em São Paulo, aceitou com comedimento a amplificação eletrônica. O cultivo de boa música, não apenas como agente de emoções artísticas, é na palavra da madame Anne Louise de Staël: de todas as belas artes a que age mais imediatamente sobre a alma. Que venha a extensão musical para as praças de Cuiabá, como podem promover os órgãos de cultura do Estado, do Município e a Universidade Federal. O povo espera a extensão com cursos e serviços da arte musical. *BENEDITO PEDRO DORILEO é advogado e ex-reitor da UFMT