ARTIGO
Segunda-feira, 10 de Agosto de 2009, 21h:29
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ENOCK CAVALCANTI
Roubaram o Hospital Central
Meus amigos, meus inimigos: se existe um crime claramente cometido contra a população é neste caso do Hospital Central de Cuiabá. As investigações sobre irregularidades na obra do hospital, iniciadas em 2003, pelo procurador da República José Pedro Taques, apontam um escândalo enorme: mais de R$ 14 milhões foram desviados. Do pior, todavia, me parece que o processo não fala: por conta da roubalheira, a população de Cuiabá e Mato Grosso, que vive dramas diários quando precisa de atendimento à sua saúde, permanece até hoje sem o hospital público que garanta o seu imprescindível socorro. A nota que Jayme Campos divulgou esta semana tentando reduzir o alcance do seu envolvimento, revela o competente assessoramento jurídico. Jayme argumenta que era o extinto Departamento de Viação e Obras Públicas do Estado de Mato Grosso (DVOP), o responsável direto pela contratação, medição e pagamento da construção. Querer atribuir a ele, Jayme, então governador, qualquer autoridade sobre a arbitragem de preços seria, então, afrontar os trâmites legais e hierárquicos da gestão pública. Sim, desde 2003, enrolações como esta vão se desdobrando na Justiça e nosso povo que reze a Deus para providenciar leitos para suas operações, para seus acidentes de trânsito, para a retirada de balas que ele segue recebendo nos assaltos e para todos os seus momentos de desespero. Os políticos, pelo que Jayme diz, não tem nada a ver com isso. O esqueleto do Hospital está lá, no Centro Político Administrativo, e depois de Jayme nem Dante, nem Maggi se preocuparam em cuidar fosse o que fosse, demonstrando o mesmo descaso diante de carência tão inexplicável. Continuaram a administrar apenas para a elite, investindo preciosos recursos na construção de deslumbrantes palacetes, no CPA, para o Tribunal de Contas, para o Ministério Público; até a Famato, que não é nenhuma repartição pública, assombra quem passeia por aqueles cenários discricionários do poder, em Cuiabá, dada a beleza de um prédio que construiu para agasalhar as festanças de nossa elite mais endinheirada. Centros de tratamento intensivo, salas de operações, enfermarias para preservar as vidas de nossa gente, nem pensar! Roubaram o Hospital Central de Cuiabá! Deixaram lá no CPA um prédio em ruínas, monumento vivo ao descaso governamental. Jayme Campos é um dos denunciados pelo MPF, juntamente com Sérgio Navarros Vieira, diretor do DVOP (no colo de quem Jayme parece querer concentrar toda culpa) e o empresário e ex-prefeito de Cuiabá, Anildo Lima Barros, dono das construtoras Aquário Engenharia e Eldorado, responsável pela obra. A condenação dos responsáveis pelos desvios de recursos é fundamental, precisamos trabalhar por ela. Imprescindível, todavia, é fazer crescer uma consciência de que, sem um hospital público em Cuiabá, não podemos ficar nem sobreviver com o mínimo de dignidade. Se não tivermos essa consciência, outros ratos poderão nos assaltar e outros governantes rombudos deixar de priorizar esta obra. * ENOCK CAVALCANTI, jornalista, é titular, em Mato Grosso, do blog www.paginadoe.com.br