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ARTIGO
Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010, 11h:04

WALDIR BERTÚLIO

Racismo e exclusão

O que acontecerá às sociedades de maioria negra, como do Brasil (mais de 50% da população, aqui em MT é 57%), se considerarmos o avanço célere das dificuldades socioeconômicas, com grande leva de trabalhadores (as) pobres e sem especialização, a maioria de cor negra, tornarem-se desnecessários (as). Com o povo negro cabalmente vítima “preferencial” da exclusão. O Brasil é a segunda nação no mundo, depois da Nigéria, em população negra. Ricardo Henriques, pesquisador do Ipea, fez uma análise investigativa da década de 90, quando mostra por dados oficiais, por números, a desigualdade violenta que está submetida a população negra no Brasil. A população negra está na frente, de longe, nos indicadores de pobreza, miséria e não acesso às políticas públicas. Um exemplo neste trabalho de investigação é o diferencial entre a escolaridade da população branca e da população negra, expondo com clareza os padrões de discriminação racial. A baixa escolaridade na população negra mantém estável o desnível entre gerações, onde pais, avós da raça negra tem o mesmo diferencial no século XX, quando comparados aos contemporâneos de raça branca no quesito escolaridade. Demonstra cabalmente um padrão continuado de desigualdade racial. O autor diz textualmente: “Além de se mostrarem diferenças nos vários recortes propostos, essas diferenças são de magnitude relevante. Mais do que isto, são estáveis ao longo da década, resistindo inclusive as melhorias observadas na maioria dos indicadores de condições de vida no país”. O que o autor mostra é uma situação gritante: a qualquer avanço nos níveis médios de condições de vida da população brasileira, não se consegue reduzir em nada a desigualdade racial, isto é, não tem nenhuma importância para os que ignoram o racismo como construtor da exclusão social. Isto quer dizer que o fosso abissal do racismo perpetrado contra a população negra e indígena não conseguirá mudanças e melhorias efetivas se não for considerada a dívida histórica de nosso país para com esta população. Os movimentos internacionais e brasileiros de reparações e ações afirmativas se referem à diminuição da contundente desigualdade nas condições de vida da população negra. Nossa luta é pela igualdade, nem mais nem menos. Queremos ter as mesmas oportunidades para a inserção no mundo da vida, do trabalho, do lazer, da utopia que alimenta a concretização dos sonhos e na mística de resistência e de enfrentamento em mais de quinhentos anos de opressão, 117 anos da saída simbólica da escravatura, em busca de uma sociedade justa e fraterna. É nesta visão do povo negro que devemos situar a calamidade que o Brasil atravessa hoje, em que pese avanços tímidos na incorporação da igualdade racial no contexto da política de governo. Temos certeza que esta condição de racismo e exclusão não é somente fruto da omissão de governos, da ação incipiente no campo estrutural do governo atual, mas também fruto de séculos de desprezo com que a elite branca tratou e trata este país. A macroeconomia que endeusa o superávit primário faz do Brasil um dos principais interlocutores dos países ricos e do FMI com o Terceiro Mundo, além de sermos um dos maiores países em recursos naturais. A ida do presidente Lula para a África tem primeiro, esta missão e este sentido muito menos que a conexão com a nossa preponderante matriz identitária. O racismo em nosso país tem que ser o elemento central na análise das desigualdades socioeconômicas. Portanto, estamos falando de reparações - terra remanescente de quilombos, ações afirmativas – cotas (por que não), como instrumentos conjunturais, no enfrentamento aqui, agora, do fosso sem fim que está imposto à população negra, em MT e no Brasil. Não é por outro motivo que nos tempos recentes a violência étnica racial retorna com tanta força em tantos lugares do mundo. * WALDIR BERTÚLIO é sanitarista, Professor aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso

Edição EDIÇÃO 16959




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