ARTIGO
Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010, 20h:03
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SELVINO HECK
Quando um natal é feliz
As lembranças de Natal, para quem é cristão, povoam mentes e corações. O mais interessante é que para quase todos e todas as melhores recordações são as da infância. Sempre se tem uma história para contar, um momento alegre, presentes recebidos, o convívio familiar, as celebrações, a alegria e a boa comida. Lá pelas bandas de Santa Emília, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul, não havia a história do Papai Noel nos anos cinqüenta do século passado, tão onipresente hoje que até quase se esquece do nascimento de Jesus. Nem por isso, - a ausência do Papai Noel e o centro no KristKind, o Menino Jesus-, as lembranças de então deixam de ser das mais fortes da minha vida, embora eu não seja muito bom em guardar detalhes do que aconteceu há muito tempo. Dias antes do 25 de dezembro, era tempo de arrumar o presépio, enorme, na sala grande, feito de papel pintado em casa mesmo, numa mistura de coisas e cores nas quais a tia Leonida era mestra. Faziam-se morros de pedra e rocha ao redor da manjedoura e caminhos cheios de serragem, por onde os 3 reis magos avançavam todos os dias alguns centímetros até chegar ao Menino protegido por Maria, José, cavalos, ovelhas, bois e outros bichos. E papai buscava um pinheirinho na roça, o mais bonito, na altura certa. Dia 24 à tarde, toda criançada de casa e da vizinhança naqueles tempos a média de filhos por família beirava os dez - era encaminhada a um potreiro próximo. Nem desconfiávamos que não era o Menino, ou Deus, ou Papai Noel, chegando para colocar as figuras nos lugares certos, lâmpadas na árvore e todo tipo de enfeites, alguns trazidos da Alemanha pelos antepassados. Acreditávamos em tudo piamente. Quando voltávamos para casa, era aquele brilho nos olhos. Mas a melhor e maior sensação de crianças era a noite. Íamos dormir cedo, loucos para que chegasse o outro dia, e encontrar de manhã os presentes que Ele, o KristKind, tinha deixado em cima da mesa em frente ao presépio. Daí ir à missa, visitar os presépios dos vizinhos e parentes, ir na casa dos padrinhos e madrinhas e receber mais presentes, o churrasco do meio dia, as cucas, doces e tortas deliciosos da vovó, e em profusão, no meio da tarde. Que delícia! Era uma festança só, envolvendo todos e todas, numa alegria e felicidade que poucas vezes era tão intensa e completa. Assim se forjavam famílias, o respeito uns pelos outros, a comunidade, a fé. Não sei se hoje ainda é exatamente assim. Não sou mais criança, estou na fronteira da terceira idade, e os tempos mudaram. Lá por Santa Emília permanece o presépio, agora menor (as famílias, e às vezes as casas, são hoje muito menores), com as mesmas rochas, o pinheirinho e a maioria das figuras de cinqüenta anos atrás, zelosamente guardadas de um ano para o outro. Por tudo isso, digo e desejo, de coração,... Feliz Natal aos que amam e são amados. Feliz Natal aos que se doam e não esperam nada em troca. Feliz Natal aos que vivem em comunidade e rezam juntos. Feliz Natal às crianças que nascem todos os dias e vão descobrir o mundo. Feliz Natal aos que não têm medo de construir diariamente a esperança. Feliz Natal a todos e todas que ainda passam fome e às vezes só ganham um pão e um carinho de presente neste dia. Feliz Natal aos que buscam a paz. Feliz Natal aos que olham mais para os outros que para si e são capazes de chorar ao ver a felicidade do vizinho e do próximo. Feliz Natal para quem 2010 não sorriu muito ou trouxe dores, mortes e sofrimentos. Feliz Natal aos que têm fé. Feliz Natal, feliz Natal! * SELVINO HECK - Assessor Especial do Gabinete do Presidente da República