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ARTIGO
Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010, 09h:43

LEVI M. DE OLIVEIRA

Oitenta anos depois

Há oitenta anos acontecia o movimento político-militar que passou à história com o nome de Revolução de 30. Na origem dos fatos, nada mais do que uma disputa eleitoral entre Minas e São Paulo, com a imposição de um paulista sobre um mineiro como candidato a presidente da República. A história, nesse ponto, se repete, pela semelhança com o ocorrido ainda recentemente, embora se trate agora de questiúncula travada no campo partidário de sigla oposta à base política do governo federal. Assim como em 1930, em 2010 a eleição pode ser resolvida outra vez por alguém egresso do Rio Grande do Sul, contando de novo com os mesmos ressentimentos de outrora. Dizem que mineiros e paulistas não se entendem, e que isso vem de longe, da guerra dos Emboabas, quando os últimos foram enxotados das Minas Gerais, com suas bateias e bacamartes; apenas se toleram em nome da boa convivência, ou da simples conveniência, republicana. Se isso é fato, a próxima eleição presidencial haverá de confirmar o dito. Getúlio Vargas, que herdou o bastão em 1930, era gaúcho, todo mundo sabe. O que nem todos sabem é que era um gaúcho com alma de mineiro, como ele mesmo gostava de dizer. Adolescente ainda, viveu por algum tempo em Ouro Preto, como estudante, aonde, quando chegou, já estavam seus irmãos mais velhos. Retornou, para completar a formação no Rio Grande, por conta de um episódio grotesco, dos mais lastimáveis. Presenciara o desfecho de uma rixa entre dois homens armados de facas, perdendo um deles a vida. Seus pais acharam que a gravidade do incidente poderia afetar o seu desenvolvimento e por isso decidiram levá-lo de volta à terra natal. Depois, o resto a história registrou. Dilma Rousseff, ao contrário, é uma mineira que fincou raízes no Rio Grande do Sul. Pode ser, por muitas outras razões, o melhor nome do governo para a eleição que se aproxima. Mas esse fato, sem dúvida, é de grande importância estratégica. Tem, naturalmente, um peso de alto significado para o eleitorado mineiro, para o eleitor do Rio Grande do Sul e, por contraponto ao egocentrismo de uma candidatura fundamentalmente paulistana, será, por certo, levado em consideração por eleitores do Brasil inteiro, principalmente do Rio de Janeiro, do Norte e do Nordeste. O fenômeno não é novo – já aconteceu e se repetiu em outras oportunidades. Não é à toa que, apesar do poderio econômico de São Paulo, nenhum paulista chegou à presidência nos últimos cem anos. Rodrigues Alves, nascido em Guaratinguetá, a mesma cidade onde nasceu Ciro Gomes, elegeu-se em 1918, mas, assim como Tancredo Neves, morreu antes de tomar posse. Fala-se, por vezes insistentemente – nunca faltando os áulicos festivos de ocasião –, que o partido do candidato paulista vai emparedar o agora ex-candidato mineiro, obrigando-o a aceitar a condição de vice numa chapa denominada puro-sangue. Pela evidência de que semelhante propósito não consulta os interesses pessoais do atual governador de Minas e muito menos a aspiração pública dos mineiros, se isso vier a acontecer, o tiro, com certeza, acabará saindo pela culatra. A submissão de um aos caprichos do outro pode ser entendida pelo eleitor brasileiro como efeito de alguma coisa bastarda, ordinária, inadmissível, incomunicável. Parodiando o mestre do teatro inglês, deixaria a impressão de que a sujeira nos escaninhos da política brasileira deve ser muito maior do que pode supor a nossa vã filosofia. Enquanto isso, a candidata que vem dos pampas, de retorno às montanhas, poderá chegar ao Planalto para inaugurar uma nova revolução, que é o que se deve esperar da eleição de uma mulher à presidência da República, pela primeira vez na história. O Brasil, apesar dos avanços verificados nos últimos anos, para chegar de fato à modernidade, precisa ainda passar por mudanças radicais, revolucionárias até. Principalmente na área da educação, no sistema previdenciário e no serviço público em geral, por dentro e por fora, fazendo valer de uma vez por todas o comando constitucional da igualdade de todos os brasileiros, de oportunidades que seja – no entanto, até aqui, meramente retórica. * LEVI MACHADO DE OLIVEIRA é advogado

Edição EDIÇÃO 16959




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