ARTIGO
Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010, 10h:28
A
A
ENOCK CAVALCANTI
O tertius é Mauro Mendes
Meus amigos, meus inimigos: terminou o carnaval, vai começar o ano de 2010. No Brasil é sempre assim, essa impressão de que a realidade nos escapa entre os dedos e que vivemos num mundo de fantasias. Só que a vida segue em frente e temos, diante de nós, mais uma vez, o desafio de construir um país, de superar esta vida severina de tantas misérias e estabelecer condições para que os cidadãos, no Brasil e, também, em Mato Grosso, vivam e sobrevivam com dignidade, sem medo do futuro. Quando se fala em mudança, as pessoas pensam em eleição. Vivo sempre com esta impressão de que eleição é um jogo de cartas marcadas. Sei que sou apenas um jornalista assustado, e que tenho à minha disposição muitos poucos dados sobre os quais refletir mas gostaria de que o compromisso democrático fosse mais explícito, concreto, verdadeiro, em todas lideranças de que dispomos. Quando é que vão acabar, de fato, estes muitos partidos de mentirinha e teremos agremiações que verdadeiramente expressem correntes de pensamento? As eleições são marcadas por muitos truques, como se fosse um desfile de escolas de samba a distribuir apenas ilusões entre a platéia. Não é bom confundir democracia com carnaval. Não é bom mergulhar nosso povo em jogo de faz de conta. Quem é que Silval Barbosa representará, capitaneando esta coligação dos botinudos com os peemedebistas e com os petistas? O que pode vir dessa união do capital com o trabalho? Partindo de Cuiabá para o interior, quem é que Wilson Santos vai defender nos palanques, meus senhores? Existe uma social-democracia pantaneira? O que é que resulta da mistura do Galinho com o Jayme Pedra Noventa? Será que o povo agüenta? Para minha pequena capacidade de avaliação, está muito errada uma eleição em que os candidatos é que escolhem os eleitores. Eles vão montando grandes coligações, pesadas estruturas financeiras, pantagruélicas máquinas de arrecadar bereré e, pronto! Está montado o esquema para recolher votos na capital, no Araguaia, no Nortão, ao longo da BR-163, nas margens do Teles Pires, nas quebradas do rio Paraguai. Está faltando projeto político-administrativo em Mato Grosso, penso eu, com minha visão turva. Alguém me diz que a mudança tem um nome e que esse nome é Mauro Mendes, empresário, novo quadro do Partido Socialista. É bom saber, de qualquer forma, que alguém surge para desequilibrar este palanque pré-programado. Com um tertius, há sempre uma chance de um debate mais rico aflorar. Fico curioso querendo saber se os socialistas vão aparecer com um programa bem articulado ou serão apenas mais um partido a nos exibir caciques a procura de índios. Seria bom que todos os partidos que temos tivessem candidatos e os encarregassem de defender suas propostas para nossa terra e nossa gente. Precisamos fazer da reflexão política, da discussão das idéias, uma rotina criativa neste Estado. Desde que Maggi despontou na política de Mato Grosso, levando o seu poder de sojicultor para dentro do Paiaguás, impera entre nós a idéia de que basta ter grana para que o candidato reúna um grande rebanho à sua volta. Falta-nos o candidato ousado e pé rapado. Grana por grana, parece que Wilson Santos é o menos endinheirado. A informação é que Silval tem muitos cobres e Mauro Mendes não precisa ganhar eleição para continuar sobrevivendo bem. Então, os três candidatos estão com suas vidas resolvidas. Quem continua sem saber ao certo como será seu futuro é o sem terra, assentado na beira da estrada, o estudante que não consegue vaga na escola ou na faculdade, o peão desqualificado que não tem onde morar ou onde trabalhar, o pai de família que não consegue dinheiro para pagar um plano da Unimed e garantir o atendimento a tempo e a hora à saúde de sua família. Este Mato Grosso, ao mesmo tempo que faz vibrar, espanta quem aqui vive e vê a violência se multiplicando seja na cidade, seja nos arrebaldes. Quando é que acaba este cotidiano irracional? Esse Mato Grosso precisa deixar de ser um ajuntamento de gente perplexa. Este Mato Grosso precisa vivenciar a política como uma solução, não como uma corrupção. * ENOCK CAVALCANTI, jornalista em Cuiabá, é titular do blogue www.paginadoe.com.br