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ARTIGO
Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010, 19h:23

ROBERTO LUIZ D´AVILA

O futuro da saúde está em risco

Neste mês de outubro, em que se comemora o Dia do Médico, a categoria de 350 mil profissionais tem uma pergunta a fazer aos gestores e à sociedade em geral. Afinal, qual o futuro da saúde brasileira? Em 1988, o país viu nascer o SUS, esperança de atendimento universal, integral, gratuito, hierarquizado e descentralizado para todos os brasileiros. No entanto, o modelo não evoluiu com a mesma velocidade que as mudanças que atingiram o Brasil nestas últimas décadas. Essa estagnação coloca-o em risco. Para garantir avanços, é urgente repensá-lo dentro de novas bases. Os problemas se acumulam: o crescimento da população e seu envelhecimento, a mudança do perfil epidemiológico, os avanços científicos, tecnológicos e das relações sociais exibem fatura que aumenta a cada dia. Sem financiamento adequado, o SUS se vulnera com recursos humanos precarizados e estrutura deficiente, deixando a população à mercê de uma assistência pouco resolutiva. Parte da solução pode vir da regulamentação da Emenda Constitucional 29. Mas a demora em aprová-la tornou o Brasil sede do sistema universal de acesso à saúde com menor financiamento público. Em 1995, de todo o dinheiro que se gastava com saúde no Brasil, 62% era público (da União, dos Estados e dos municípios) e 38% eram privados. Já em 2009, essa proporção havia minguado para 47% de gasto público e 53% privado. Este cenário traz prejuízos à assistência desejável à saúde do povo brasileiro. O caos se materializa nas emergências, sempre lotadas, que se tornam porta de entrada dos problemas de saúde que dependeriam de cuidados no campo da atenção básica, secundária ou da alta complexidade. Na Saúde Suplementar, a ameaça aparece de outras formas. A interferência de planos e operadoras colocam o exercício ético da Medicina em concordata. Levantamento recente da Associação Paulista de Medicina mostra que mais de 90% dos médicos consideram descabida a pressão das empresas no atendimento aos pacientes. Além disso, há a defasagem das tabelas de procedimentos que tem gerado insatisfação entre os profissionais. Permeando os problemas que se acumulam nas áreas pública e privada, está o descaso geral com relação aos médicos. Os profissionais penam com honorários defasados, precarização dos vínculos de emprego e estrutura de trabalho inexistente. Enfim, o silêncio dos gestores diante desse quadro repercute na autoestima da categoria, em busca de sua valorização. A falta de ações para responder às questões elencadas nos inquieta e deixa os brasileiros sem uma perspectiva de futuro no campo da saúde. Afinal, o que esperamos em 10, 20, 30 anos: sofrer com orçamentos insuficientes? Ver a manutenção dos vazios assistenciais no interior e de áreas ainda sem médicos? Aceitar a mercantilização da saúde conduzida pelas operadoras? Esperamos que em outros outubros nossa ansiedade esteja aplacada e possamos, juntos, realmente comemorar o Dia do Médico e a vitória do interesse coletivo na gestão da saúde brasileira. *ROBERTO LUIZ D´AVILA – presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM)

Edição EDIÇÃO 16959




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