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ARTIGO
Terça-feira, 03 de Fevereiro de 2009, 21h:47

ONOFRE RIBEIRO

Nós e a copa do mundo

Desde o dia 7 de dezembro que não escrevi mais artigos diários. Por muitas razões. A primeira, foi que os últimos artigos antes daquela data me deixavam com a sensação de que não estava sintonizando o mundo que se avizinhava com a crise mundial nos seus desdobramentos sobre as mudanças de comportamento das pessoas. Depois de 18 anos e meio, resolvi dar-me um tempo. Deixei esvaziar a cabeça. Não pensei mais, como penso constantemente sobre o que escrever e nem como escrever. Dei um tempo mesmo! O segundo motivo é que precisava fazer uma cirurgia no ombro, decorrente de uma queda de cavalo (literalmente), e certamente ficaria imobilizado por um tempo. E foi assim mesmo. Mas já voltei a digitar com alguma facilidade. De outro lado, tive tempo de compreender que, de fato, tempos novos estão chegando dia após dia e nos empurrando para uma nova compreensão do mundo, da vida e, principalmente, de nós mesmos. Acho que troquei os meus disquetes de percepção do mundo. Mas, volto em plena discussão sobre a escolha de Cuiabá para sub-sede da Copa de Mundo de 2014. O furor está no ar, apesar de desarticulado e focado errado. Cuiabá está disputando contra o adversário errado, na hora em que age a partir das provocações da concorrente Campo Grande. Peço permissão aos leitores para discutir exatamente esse ponto: a rivalidade entre Cuiabá e Campo Grande. Moro em Mato Grosso desde agosto de 1976, período que antecedeu ao furor da divisão que criou o estado de Mato Grosso do Sul, desmembrado em 1979. Naquela época, Cuiabá e Campo Grande viviam um “Fla-Flu”. Lá, vivia-se a influência mineira e paulista sob a égide de uma poderosa economia pecuária pantaneira. Em Cuiabá vivia-se a influência do Rio de Janeiro e a experiência histórica de sede do poder. Os descendentes dos pecuaristas estudaram em São Paulo, e reforçaram a idéia da divisão, alegando como principal argumento um elemento que viria a ser um colonizador mental para os cuiabanos: aqui se gastava o que lá se produzia. Cuiabá era parasita e Campo Grande era ativa. Os bastidores do processo da divisão de Mato Grosso foram marcados por um jogo político violento, agressivo e impiedoso da elite pantaneira e pecuarista, sediada em Campo Grande, ambiciosa pelo poder político no novo estado. Do lado de cá, uma Cuiabá passiva e preocupada com o esvaziamento econômico depois que a divisão ocorresse, porque os sulistas deixariam de freqüentar a capital do estado para resolver questões junto ao governo. A divisão veio, e nada disso aconteceu. Apesar da enorme pobreza de infra-estrutura do norte, Mato Grosso deu um salto e superou largamente o Sul. Vale a mesma coisa agora. Campo Grande está jogando e atingindo a auto-estima de Cuiabá pela desqualificação que estão produzindo as críticas veiculadas na imprensa, vindas do governador, da mídia local e de todos os meios econômicos. Estão repetindo a mesma estratégia e Cuiabá está entrando de novo, no mesmo jogo da divisão, de 1976 até 1977. De novo, Cuiabá não se organizou à altura do evento, do mesmo modo que se curvou para Campo Grande há 32 anos atrás. Volto ao assunto amanhã. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM [email protected]

Edição EDIÇÃO 16959




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