Por consideração aos leitores de meus artigos, sempre leio os comentários enviados, embora raramente me manifeste sobre os mesmos. Não tenho dilemas com a divergência de pensamento. Meu incômodo se dá quando sou avaliado pessoalmente e por anônimos. Isso ocorreu por conta de meu artigo: Ensino de língua e obviedades. Sem se identificar nominalmente, um estudante disse que meus argumentos ali expostos tornaram-se inválidos. Motivo: eu teria me eximido de um debate acadêmico que eu mesmo provocara. Duvidou que minha ausência ao primeiro debate sobre o ensino de língua portuguesa, promovido na hora devida pelo Colegiado do Curso de Letras/UFMT, tivesse se dado por conta de um compromisso anteriormente assumido. Afirmou, como se conhecesse fatos, que minha justificativa era desculpa tradicional. Nas entrelinhas, chamou-me de mentiroso. É possível que muitos não enxerguem nessa minha preocupação motivo para tanto. Mas há; e é de caráter didático. O emissor repito é um estudante, independentemente de cursar ou não uma das disciplinas que ministro. Por conta de sua condição, sinto-me no dever de tornar público que, há uns três meses, em uma reunião de Departamento, houve aprovação coletiva para que eu ministrasse um curso, a convite da Unemat, em Juína-MT. Tal atividade encaixava-se num calendário fechado daquela Instituição. Por outro lado, a pontualidade dos debates sobre o ensino de língua se deu recentemente por conta daquele livro didático que estimula o afrouxamento do ensino da norma culta. Houve coincidência de atividades; isso fugia de meu controle. Portanto, não me esquivei do debate por conta de nenhuma desculpa tradicional, mas por conta de responsabilidade com compromissos assumidos anteriormente. E eis aqui o ponto central de minha preocupação. Como a mentira e a canalhice estão instituídas no País, fui analisado e nivelado como um ser igual a tantos que o estudante provável e infelizmente conhece. Isso é grave. Não tanto para mim, mas mais para ele próprio e para a sociedade; afinal, o estudante, se continuar baseado em generalizações, poderá ser mais um futuro docente dentre os que já se movem na linha da subjetividade que, em geral, pode esconder ignorâncias. Nesses casos, o risco de acertar alguma coisa é praticamente nulo; o de errar tudo é quase completo. Pior. Esconde-se no conforto do anonimato. Essa postura não edifica ninguém. Dito isso, restou-me pouco espaço para tratar da centralidade deste artigo: o ensino da norma-padrão, posto que meus argumentos continuam válidos, independentemente de eu poder ou não participar de todos os debates ocorridos mundo. Assim, hoje, destaco a entrevista do prof. Evanildo Bechara, concedida à Veja, nas páginas amarelas, de 01/06/2011. Bechara vai ao cerne: ensino de língua formal é questão de opção de classe. Ao desestimular o aprendizado das normas, o professor está ajudando a perpetuar a situação social de pobreza econômica e mendicância cultural de milhões de brasileiros. Em tempos de caos, fica difícil saber o que é mais trágico, se a miséria econômica ou a indigência de conhecimentos. Em geral, ambas se entrelaçam. Resultado: aberração social. Termino lembrando os acadêmicos populistas das universidades (aliás, muitos vindos das classes subalternas) dois pontos: 1º) nosso povo é capaz de aprender tudo o que lhe for ensinado; 2º) a partir desse debate, pautado pela mídia, não há mais inocência política que possa ser relevada nas universidades brasileiras. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Ciência da Comunicação-USP e prof. da UFMT
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