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ARTIGO
Terça-feira, 14 de Junho de 2011, 20h:54

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Normas nossas de cada dia

Por consideração aos leitores de meus artigos, sempre leio os comentários enviados, embora raramente me manifeste sobre os mesmos. Não tenho dilemas com a divergência de pensamento. Meu incômodo se dá quando sou avaliado pessoalmente e por anônimos. Isso ocorreu por conta de meu artigo: “Ensino de língua e obviedades”. Sem se identificar nominalmente, um “estudante” disse que meus argumentos ali expostos “tornaram-se inválidos”. Motivo: eu teria me eximido “de um debate acadêmico” que eu mesmo provocara. Duvidou que minha ausência ao primeiro debate sobre o ensino de língua portuguesa, promovido na hora devida pelo Colegiado do Curso de Letras/UFMT, tivesse se dado por conta de um compromisso anteriormente assumido. Afirmou, como se conhecesse fatos, que minha justificativa era “desculpa tradicional”. Nas entrelinhas, chamou-me de mentiroso. É possível que muitos não enxerguem nessa minha preocupação motivo para tanto. Mas há; e é de caráter didático. O emissor – repito – é um estudante, independentemente de cursar ou não uma das disciplinas que ministro. Por conta de sua condição, sinto-me no dever de tornar público que, há uns três meses, em uma reunião de Departamento, houve aprovação coletiva para que eu ministrasse um curso, a convite da Unemat, em Juína-MT. Tal atividade encaixava-se num calendário fechado daquela Instituição. Por outro lado, a pontualidade dos debates sobre o ensino de língua se deu recentemente por conta daquele livro didático que estimula o afrouxamento do ensino da norma culta. Houve coincidência de atividades; isso fugia de meu controle. Portanto, não me esquivei do debate por conta de nenhuma “desculpa tradicional”, mas por conta de responsabilidade com compromissos assumidos anteriormente. E eis aqui o ponto central de minha preocupação. Como a mentira e a canalhice estão instituídas no País, fui “analisado” e nivelado como um ser igual a tantos que o estudante provável e infelizmente conhece. Isso é grave. Não tanto para mim, mas mais para ele próprio e para a sociedade; afinal, o estudante, se continuar baseado em generalizações, poderá ser mais um futuro docente dentre os que já se movem na linha da subjetividade que, em geral, pode esconder ignorâncias. Nesses casos, o risco de acertar alguma coisa é praticamente nulo; o de errar tudo é quase completo. Pior. Esconde-se no conforto do anonimato. Essa postura não edifica ninguém. Dito isso, restou-me pouco espaço para tratar da centralidade deste artigo: o ensino da norma-padrão, posto que meus argumentos continuam válidos, independentemente de eu poder ou não participar de todos os debates ocorridos mundo. Assim, hoje, destaco a entrevista do prof. Evanildo Bechara, concedida à Veja, nas páginas amarelas, de 01/06/2011. Bechara vai ao cerne: ensino de língua formal é questão de opção de classe. Ao desestimular o aprendizado das normas, o professor está ajudando a perpetuar a situação social de pobreza econômica e mendicância cultural de milhões de brasileiros. Em tempos de caos, fica difícil saber o que é mais trágico, se a miséria econômica ou a indigência de conhecimentos. Em geral, ambas se entrelaçam. Resultado: aberração social. Termino lembrando os acadêmicos populistas das universidades (aliás, muitos vindos das classes subalternas) dois pontos: 1º) nosso povo é capaz de aprender tudo o que lhe for ensinado; 2º) a partir desse debate, pautado pela mídia, não há mais “inocência política” que possa ser relevada nas universidades brasileiras. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Ciência da Comunicação-USP e prof. da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16959




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