ARTIGO
Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010, 21h:00
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LORENZO FALCÃO
Natal e ano novo
Nem Natal, nem ano novo. Entre as duas datas e aquela preguiça lascada. Ter um livro pra ler e não lê-lo. Uma visita pra fazer e falhar. Um texto pra escrever e necas. Só a louça... Essa tem que ser lavada, porque mais comida... nhã... nhã... nhã... precisa ser feita. E fico me lembrando da azia feroz que tive no domingo à noite. Com méritos, porque minha comilança foi meio irresponsável. Cada vez acredito mais que esses dias que ficam entre o Natal e a passagem de ano foram feitos pra encher a pança e morgar. Se como, me dá sono, se durmo, me dá fome. E se a gente pega uns quilinhos extras, tem os desejos que devem ser pedidos no final do ano, para o próximo. Mas aí, mano, tem que, literalmente, correr atrás. Dá-se um jeito. Meu Natal foi totalmente família. É uma espécie de regra. Chester com cuz cuz marroquino e saladinha esperta no dia 24, no dia 25 uma reciclagem desse mesmo cardápio algo mais do que o restodontê - com direito a uma farofa com os miúdos da ave gigante. Essa farofa, pra falar a verdade, eu vinha sonhando com ela faz horas. E no último domingo (26), final do feriado, um risoto de funghi porchini com bracholas. Mais frutas, doces, cerveja e vinho, religiosamente. Por falar nisso, perdi a Missa do Galo. Na verdade, esqueci. Que Deus me perdoe. Sempre achei o Natal uma festa que não é nenhum show de animação. Nesse sentido nunca foi nada de especial. Será que é porque não acredito em Papai Noel, ou será que faltou uma lareira lá em casa? Natal, numa visão mais crua e cruel é mesmo aquela sengraceira e nem adianta querer inventar moda. Sinto saudades dos natais quando meus filhos eram ainda pequenos. Certa vez, cheguei até a me vestir de Papai Noel, pra eles e os sobrinhos. Só consegui segurar o disfarce por alguns poucos minutos, aí tive que fugir com um acesso de riso. Foi uma das experiências familiares mais incríveis que já tive. Puxando pela memória, me recordo de um cartão que minha mãe e minha irmã enviaram lá pelo início dos anos 80. Na capa: sabe quem Papai Noel pegou andando com seus viadinhos? Abrindo o cartão tava lá manuscrito com a letra da mama ou da mana: Lorenzo e sua turma. Que coisa. Deve ser porque nunca primei pela boa companhia, segundo os conceitos mais demasiados politicamente corretos. O Natal foi mais ou menos ou é isso aí. Agora é a contagem regressiva para a virada do ano que chega com tudo. Preconceitos à parte, não confundam essa virada que falei, com outro tipo de 'virada'. Embora cada um se vire como possa. E se seu destino, na virada, for Chapada, não se esqueça que é só uma cidade, substantivo feminino. Nada de chapado. Ainda mais se você mesmo for dirigindo. * LORENZO FALCÃO é editor do Ilustrado e escreve neste espaço às terças-feiras