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ARTIGO
Terça-feira, 18 de Dezembro de 2012, 21h:11

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Natal à vista e nulidades a prazo

Os dias que precedem o final de ano, inserindo aí o natal, dificultam o clima para reflexões mais pesadas. Amenidades, afagos e lembrancinhas de papai Noel são as coisas mais desejadas pela maioria nesse momento. Contrariando essa onda, não sem padecer desse clima de “bons velhinhos”, trajados de vermelho e presentes por toda parte, insistirei contra a natureza humana de nossa nacionalidade. Tratarei de um tema nada suave. Se você, leitor, pensou que eu fosse falar das novidades sobre a corrupção petista, errou. Não porque elas não existam. Existem. E como! E agora envolvem escancaradamente o sr. Lulla, a sra. Rosemary e outros personagens menores, mas todos detentores de altíssimas contas bancárias. Espero que nenhum deles fique ileso. 2013 promete... Mas vamos ao ponto. Desde a primeira semana de novembro, quando li, na Folha de São Paulo, o artigo “O filósofo do martelo na academia”, de Luiz Felipe Pondé, tenho pensado em escrever este texto que ora você está lendo. Hoje, saldo a dívida comigo. Na essência, Pondé, com base em reflexões do filósofo Nietzsche (1844-1900), expõe – como eu já fiz em outros momentos por aqui – seu “...constante mal-estar com o que a vida universitária se transformou, em épocas de produtividade industrial do ensino superior”. A essência da universidade é a busca pela criatividade, pela originalidade, defesa de Nietzsche para o próprio desenvolvimento da natureza humana. Todavia, a atual forma produtivista exigida de todos os seres que fazem nossa vida universitária tem resultado na formação – em série – de seres não-originais, desnecessários, tanto nas graduações quanto nas pós-graduações. Logo, para Pondé, “o pensamento está morto”. Mais do que isso: “A universidade está morta e só não sente o cheiro do cadáver quem tem vocação para se alimentar de lixo. Fosse Kafka vivo e escrevesse um conto sobre nós, acadêmicos, nos colocaria com cara de ratos”. Que imagem forte e dolorida! Pondé foi o que mais se aproximou de um enunciado por mim antes formulado: quando caminho pelas universidades, sinto-me pisando em cadáveres e escombros. Pondé, em sua fina ironia, nos pede que imaginemos “Nietzsche preenchendo o currículo Lattes, uma plataforma informática que supostamente democratiza o acesso à produtividade da comunidade acadêmica, ao mesmo tempo em que normatiza e quantifica esta produtividade. Na prática, o Lattes serve para nos tomar tempo (sempre dá pau) e acumular platitudes e repetições que visam à quantificação de um quase nada de valor”. Que triste verdade! Conheço colegas que não dormem sem antes abrir o seu “Lattes”, para ali inserir qualquer “arroto acadêmico” que tenha dado durante o dia. Almoço requentado no jantar é o que mais há nos tais Lattes. Essa plataforma virtual é o maior dos espaços reservados à farsa e à mediocridade da academia. Fossem feitas leituras sérias de tudo o que ali está, muita gente responderia por alguns crimes previstos em legislação. Para Pondé, “Não existiria filosofia se nossos patriarcas, de Platão a Nietzsche (para citar dois grandes), tivessem que preencher o Lattes, fazer relatórios Capes ou serem ‘produtivos’. Todos seriam o que, aos poucos, nos transformamos: burocratas mudos da própria irrelevância. Analfabetos do pensamento”. Assim vamos caminhando e produzindo montanha de coisas insignificantes. Vamos nos anulando como seres potencialmente originais. Vamos produzindo nulidades a rodo. Ciclicamente, nossas nulidades vão sendo reproduzidas a prazo e a perder de vista. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP; prof. Literatura/UFMT

Edição EDIÇÃO 16959




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