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ARTIGO
Quinta-feira, 14 de Junho de 2007, 19h:58

NATACHA WOGEL

Não sai da lembrança

Desde que ocorrido o trágico acidente entre o Boeing 737-800 da Gol, que vitimou 154 pessoas, voei pela primeira vez, no último fim de semana, pela companhia aérea. Definitivamente, nas cerca de duas horas que separam Cuiabá de São Paulo pelo ar, em nem um momento sequer deixei de pensar em todas aquelas vidas perdidas por conta da imprudência de uns e da negligência de outros. Viajei com minha filha de apenas quatro aninhos sentada no meu colo e por todo tempo tinha vontade de abraçá-la cada vez mais forte quando tentava imaginar os pouquíssimos momentos de consciência passados pelas pessoas dentro daquele Boeing antes de ele começar a se desintegrar ainda no ar. Apesar da bela vista do alto das minúsculas luzes que iluminam as diversas cidades que passavam lá em baixo – o céu estava completamente limpo no trajeto -, meus pensamentos transitavam entre “o que será que está vindo pela frente? Uma outra aeronave, um pássaro ou qualquer outra coisa que possa colidir com este avião?” Até a possibilidade do combustível não ser suficiente para chegarmos até o destino final. Vôo cheio, muitas crianças a bordo, uma tripulação forçosamente simpática – como é de praxe – e a eterna sensação de que as vidas de todos nós estavam nas mãos de meia dúzia de pessoas, entre controladores de vôo e os pilotos que o conduziam. Esses profissionais certamente não desempenham tarefas muito simples, apesar de toda tecnologia. Além de complicada, acredito, a missão de conduzir aeronaves pelos ares – navegando ou em terra – envolve uma carga de responsabilidade absurda. Por isso, não é possível entender como uma tragédia daquela pôde acontecer com tudo – em tese – sob controle, como demonstraram as investigações, imagens e reportagens produzidas sobre o assunto desde então. Os pilotos do Boeing 737-800, deduzo, devem ter lutado até o fim para impedir o pior. Morreram agarrados aos manches, como descreveram aqueles que resgataram os corpos. Eram apenas eles por todas aquelas pessoas e, certamente, não conseguiram. Enquanto isso, controladores de vôo simplesmente deixaram de observar que o Legacy, jato que colidiu com o Boeing, desapareceu do radar. E muito pior, não perceberam, ou perceberam e nada fizeram, a informação do radar que a todo momento dizia que o jatinho estava na altitude errada. A crise aérea brasileira continua. No alto-falante da aeronave, a comissária se desculpa pelo atraso da partida justificando o fato através da “confusão estabelecida no tráfego aéreo brasileiro dos últimos tempos”. Definitivamente, voar pelos céus do país desde 29 de setembro de 2006 nunca mais será uma tarefa fácil para mim. NATACHA WOGEL é editor do caderno Cidades do Diário

Edição EDIÇÃO 16959




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