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Cuiabá MT, Quarta-feira, 10 de Junho de 2026

ARTIGO
Segunda-feira, 03 de Maio de 2010, 21h:07

AIRTON REIS

Maiaras dos Maranhões

Pensem nas crianças sem leito hospitalar. Pensem nas crianças sem infância para brincar. Pensem nas crianças rotas e alteradas de olhar em olhar. Pensem nas crianças que morrem pela ausência do verbo legislar. Pensem nas crianças que sucumbem diante do anonimato no ato de governar. Pensem nas crianças pedintes de cidadania. Pensem nas crianças distantes da democracia. Pensem nas crianças sobreviventes em mais de uma periferia. Pensem nas crianças relegadas numa pátria constitucional. Pensem nas crianças ignoradas pelo Poder Central. Pensem nas crianças viciadas além das praças do Distrito Federal. Pensem nas crianças arrastadas para o mundo marginal. Pensamentos irmanados de geração em geração. Pensamentos associados a mais de uma exclusão. Pensamentos que voam mesmo sem nunca terem viajado de avião. Pensamentos de um Parnaso florescido em vão. Pensamentos de uma modernidade que nunca aconteceu. Pensamentos sobre uma realidade que a classe política inverteu. Pensamentos de mais de uma Marília sem Dirceu. Pensamentos de mais de uma Rosa sem Hiroshima. Pensamentos congruentes em mais de uma calamidade cada vez mais assassina. Pensamentos derivados da mesma propina. Pensamentos agregados em mais de uma pátria sem esquina. Pensamentos com indignação e sem qualquer rima. Pensamentos traduzidos em omissões de funeral em funeral. Pensamentos propícios de pleito em pleito eleitoral. Oh Pátria continental! Oh Pátria desigual! Oh Pátria dos planos acelerados de um crescimento virtual! Pátria mãe e Pátria madrasta. Pátria filha e Pátria algoz. Pátria família sem voz. Pátria muda em mudança que nunca prescreveu. Pátria calada em esperança diluída na areia movediça da corrupção institucional. Pátria fadada aos percalços das vidas sem amparo jurisdicional. Pátria falida de paraíso em paraíso fiscal. Pátria combalida em ordem legal. Pátria preterida de um Marques sem Pombal. Pátria perdida de um Duque sem Caxias numa mesma Balaiada. Pátria procurada de coisa em coisa julgada. Pátria emergente do capitalismo sem selva em mais de uma clareira. Pátria brasileira em Hino, Brasão e Bandeira. Pátria de Rui Barbosa em legalidade diante da hipocrisia. Pátria de Tancredo Neves em liberdade nunca tardia. Pátria de Maria em Maria. Pátria de João em João. Pátria de José em José. Pátria do leite pingado com café. Pátria do eleitorado enganado em boa fé. Pátria da carta sem remetente. Pátria da Imperatriz sem presidente. Pátria dos Leopoldinos sem Amaral. Pátria dos Galdinos sem terra natal. Pátria dos Severinos sem xiquexique. Pátria das nobrezas sem qualquer parlamento. Pátria das misérias diante de um mesmo esquecimento: Olhai por todas as crianças desprotegidas. Cicatrizai chagas. Curai feridas. Até que a próxima morte prematura nos separe! Até que a próxima poesia nos iguale! Pense e fale! *AIRTON REIS é poeta em Cuiabá-MT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16959




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