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ARTIGO
Quarta-feira, 21 de Novembro de 2012, 21h:00

GABRIEL NOVIS NEVES

Eta nós!

O atraso mental de alguns dos nossos governantes chega a ser irritante. Pensam que com a sua visão primária iludem a todos. Quando o Lúdio ganhou a convenção do seu partido para ser candidato à prefeitura de Cuiabá e, sabendo do acidente que sofri no meu joelho - obrigando-me ao repouso e uso da bengala - veio me fazer uma visita de médico (rápida). Expliquei que não estava doente, apenas pagando juros pela minha longevidade. Claro que logo o assunto política aflorou. Perguntou-me o meu bom Lúdio: “E agora”? Respondi que o candidato vitorioso seria aquele que demonstrasse maior emoção e vontade política para resolver o problema mais caótico da cidade: a saúde pública. Alertei-o ainda para o fenômeno da “cristianização” - criado nas eleições presidenciais de mil novecentos e cinquenta. Foi o seguinte: o partido do governo da República, e da maioria dos Estados, fingia que apoiava o seu candidato oficial Cristiano Machado, um honrado deputado federal mineiro. A oposição (UDN) disputava a presidência da República com o mesmo candidato (Brigadeiro Eduardo Gomes), que havia perdido a eleição anterior para o cuiabaníssimo Eurico Gaspar Dutra. Vargas era o candidato dos pobres e dos trabalhadores (PTB). O PSD discursava em defesa do que hoje chamamos de alinhamento, e mandava os seus eleitores a votarem no ex-ditador. Com a apuração dos votos, e vitória do Vargas, foi criada a expressão “cristianização”, que vem a ser o mesmo que traição. Lúdio entendeu o recado com um balanço positivo da cabeça. Tiraram o discurso do Lúdio na falta de interesse para elegê-lo, e ressuscitaram a tese autoritária do alinhamento político. Amordaçado o candidato nada pode fazer. O atuante vereador teve que ficar mudo frente a situações que não concordava, principalmente na área de saúde pública. Ele sempre foi contrário à privatização da saúde pública. O seu principal cabo eleitoral por aqui, privatizou toda a saúde do Estado. O ministro da Saúde, um dos principais responsáveis pelo sucateamento da saúde no Brasil, para ‘fortalecer’ o seu candidato afirmou, em comício, que o seu ministério e o governo federal tinham como meta passar todos os serviços de saúde à iniciativa privada. Cuiabá é uma cidade de funcionários públicos. O governo do Estado deu uma mãozinha na cristianização, acabando com o plano de saúde dos servidores estaduais, o famigerado MTSaúde criado no governo anterior, deixando mais de cinquenta mil usuários sem atendimento em pleno período eleitoral, onde a maioria dos beneficiários era de Cuiabá. Para completar o calvário de traições, foram também suspensos os repasses de recursos aos hospitais prestadores de serviços ao governo, assim como aos serviços auxiliares, médicos e outras categorias de trabalhadores de saúde. E o Lúdio nada podia falar. O seu silêncio foi o preço que pagou pela tese do alinhamento e o apoio recebido do seu principal aliado aqui. Teve ainda que suportar calado, a invasão de ‘voluntários’ na direção da sua campanha, com a promessa de ajudá-lo a vencer as eleições logo no primeiro turno. Agora, abandonado pelos apoiadores e voluntários, o seu partido (PT), herdou as dívidas de campanha. Não sendo caloteiro, venderá até a última gota do seu sangue para saldar essas dívidas, já que é um médico-vereador sem fortunas inexplicáveis. Menos de trinta dias são passados do desastre do comício da Praça das Bandeiras, onde o caixão da derrota do candidato do alinhamento foi fechado e, no Palácio Paiaguás, foi acertado o planejamento para as próximas eleições majoritárias estaduais. O governador atual, que era vice do anterior, vai ser candidato ao Senado. O ex, agora senador, retorna ao seu posto antigo para continuar com o programa estradeiro, tão do agrado do pessoal do agronegócio. Com esses arranjos, que inclui até troca de partidos, nunca ficou tão fácil ganhar a eleição para o governo do Estado como em 2014. Essa é sua, Pedro Taques. *GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT

Edição EDIÇÃO 16959




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