ARTIGO
Segunda-feira, 23 de Março de 2009, 21h:55
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LUIZ CESAR DE MORAES
Esperar sem exasperar
A melhor defesa contra o tédio da espera é viver só por hoje e aproveitar cada momento da vida. Qualquer um pode praticar isso de modo que o tempo que passa no consultório médico, na ante-sala do dentista, em fila de banco ou à espera de vaga no lava-jato deixe de ser uma tortura chinesa como os impacientes consideram. Não por acaso os sábios sempre souberam que a paciência é uma das virtudes que mais ajudam o ser humano a viver em paz consigo mesmo e com o mundo. É esse o entendimento que motiva alguém a agir com prevenção quanto à espera, a tomar decisões que lhe assegurem um estado de espírito disposto a evitar a irritação que sobrevém quando depara com uma espera estressante. Mas o que dizer das situações mais graves, das horas em que a indignação contra a espera for absolutamente justificável? Tem gente que dá vazão aos seus instintos irracionais quando não consegue se controlar, inclusive eu - mas faço questão de repetir - esse não é o melhor caminho. Tal como no caso da insônia, que nada mais é do que o desconforto que o insone sofre esperando o sono que nunca chega, em que a melhor solução é fazer qualquer coisa, menos insistir em dormir; como toda e qualquer espera, a solução também é agir antecipadamente para prevenir que o problema se agrave. Uma boa idéia é não se irritar com isso. Outra coisa sensata é se dedicar à alguma atividade que dê prazer ou que ocupe a mente enquanto se espera. Ouvir música é um intenso prazer. Tem quem goste de música clássica, sertaneja, lambadão ou funk, não importa, há gosto pra tudo. Fazer palavras cruzadas exercita e ocupa a mente, dizem os aficionados do tema, e é atividade ideal que entretém enquanto esperamos por algo. Escrever também integra a lista de atividades que ajudam a manter a mente ocupada, em vez de deixá-la vagar ao sabor da irritação. Eu, por exemplo, escrevo essas maltraçadas linhas enquanto espero na fila do lava-jato. Exceto pelo detalhe do rádio ligado no último volume num programa sertanejo, em que Amado Batista desfia um rosário de desilusões com a mulherada, no mais até que me divirto com a cena nessa manhã domingueira de muito sol. Não mais do que de repente, minha mente se inunda de pensamentos que ilustram essa tese singela. Um que me ocorre agora, porque integro a lista dos que gostam de ler, tem a ver em ter um livro sempre à mão em momentos de espera. Seja no banheiro sentado no trono, no carro ao enfrentar um engarrafamento ou uma troca de pneus imprevista, seja na situação que experimento agora, a idéia é oportuna. De concreto mesmo resta a síntese desse solilóquio, dessa conversa silenciosa que tenho de mim para comigo mesmo. Fazer qualquer coisa prazerosa, ou que apenas nos deixe com a mente ocupada, é melhor do que simplesmente esperar. Experimente você também, caro leitor. Eu, por exemplo, sou testemunha do que digo: na pior das hipóteses, estou com o meu artigo de terça-feira pronto. LUIZ CESAR DE MORAES é editor de Opinião do Diário