Em artigo anterior (25/08), tratei da despolitização vigente no Brasil. Disse que não há diferença substancial entre os primeiros candidatos que aparecem nas pesquisas. O próximo governante (de calças ou de saias) continuará a serviço do capital. Sua maior tarefa será apenas de continuar o fenomenal ludíbrio popular, sagazmente esmerado por Lula, que soube se apropriar muito bem da herança bendita de FHC/PSDB e Cia. Já acerca do futuro político do ex-líder sindical, que ora preside o País, disse que a ninguém que estivesse informado sobre sua trajetória na política deveria causar estranhamento o fato de ele estar articulando (palavra bem cara a muitos do PT!) seu ingresso na ONU ou no Banco Mundial. Só faltou o FMI. Coisas de bravateiros. Dois dias após, li o artigo Fuga para o vencedor de Ruy Castro (Folha de São Paulo /FSP/, p. A2). Sob outro ângulo, o escritor continua a mesma preocupação que demonstrei. Castro fala das atuais coligações partidárias. Trata do oportunismo de se grudar em quem se apresenta como potencial vitorioso. Para isso, estabelece rico paralelo histórico com a prática iniciada durante as eleições indiretas, à época, polarizadas por Paulo Maluf e Tancredo Neves. A título de informação aos leitores mais jovens, isso ocorreu na transição do final da ditadura militar para o regime democrático, lá pelos idos de 85 do século passado. O articulista mostra a gênese da inversão político-ideológica que ora vivemos. Na expectativa daquele momento político, pressupunha-se que Tancredo atraísse votos ideológicos, ou seja, dos parlamentares contrários à ditadura. Por outro lado, com Maluf, ficariam os fisiologistas do Congresso: políticos raposas que apoiavam os militares. Por contingências várias, e por conta da composição/arrumação feita por Tancredo com Sarney para a vice-presidência de sua chapa, era certa a vitória de Neves, que parecia estar enfermo. E assim a água do rio turvou-se. Os verdadeiros votos ideológicos 180 fiéis foram depositados a Maluf. As 480 raposas e infiéis do Congresso grudaram no mineirinho que nem chegou a assumir a presidência. Morreu antes de ser enfaixado. Sarney, hoje, presidente do Senado e o maior articulador político de Lula/PT, foi quem assumiu a presidência da República. Tragédia brasileira! Depois daquilo, só lama. A vergonha e a ética políticas vêm sendo perdidas dia-a-dia. O PT, de rica oposição que durou do surgimento até a derrota de Lula para Collor em 89, hoje, como o principal partido da ordem, beneficia-se com a prática iniciada nos bastidores daquelas eleições indiretas. A maior prova é que Michel Temer (do mesmo PMDB do imortal presidente do Senado, ex-apoiador político dos ditadores) é o candidato à vice-presidência de Dilma, ex-extremista de esquerda que honradamente lutara contra os militares. Hoje, assim como Tancredo no passado, ela continua bravamente a lutar, mas contra um câncer. No mais, está bem endireitada. Crente de assumir a presidência da República, ela só usa as armas permitidas pelo capital. O problema é que tais armas são subjetivas; logo, são mais terríveis, abrangentes e incompreensíveis para um turbilhão de seres paradoxalmente preparados para o ignaro. Por falar em Temer (FSP: 27/08), de sua voz, e sem temor algum do futuro, veio a verbalização do que já se sabia. Na Câmara Portuguesa de Comércio/SP, buscando tranquilizar os investidores, Temer disse que os movimentos sociais, os pobres e a gelatinosa classe média foram pacificados no Brasil. Foram mesmo. Lideranças do próprio MST que o digam. Estão com Rousseff e não abrem. Isso que é se colar aos donos do poder. Reforma Agrária, Adeus! À massa, só as místicas. Só o teatro. Mas para não dizer que tudo está dominado, humoristas brasileiros acabaram de realizar passeada contra o dispositivo da lei eleitoral que impedia charges/piadas dirigidas a candidatos. Uma liminar, cujo mérito ainda será julgado, foi concedida. Por enquanto, os artistas estão livres da censura. Com essa licença jurídica, e pelo resultado da última pesquisa eleitoral, Angeli, na mesma edição da FSP/p. A2, expôs uma charge, na qual a caricatura da candidata do PT aparece fazendo o V da vitória. Detalhe: em seu sorriso, no lugar dos dentes, surge a palavra dossiê, grafada em letras maiúsculas. Dossiê? Será por quê? Vamos pensar um pouco? Ainda é tempo para isso. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT
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