Centenas de cavaleiros e amazonas com seus chapelões de abas largas, lenços coloridos e afiadas esporas, juntamente com carroças enfeitadas e repletas de mulheres bonitas cruzam Rondonópolis de uma a outra ponta anunciando a abertura da maior feira agropecuária do Centro-Oeste, a internacional Exposul. Num canto da calçada, espremido pela multidão curiosa, acompanho o trotar dos cavalos, os toques berranteiros e o barulhão de felicidade explícita do abraço da cidade com o campo misturando empresários e peões de comitivas, profissionais liberais e leiteiros, executivos e batedores de pasto, enfim, democratizando a relação social dos rondonopolitanos e seus vizinhos que também participam da cavalgada. Noto que as reluzentes esporas não cutucam as ilhargas das montarias Por isso a cavalgada avança lenta, pachorrenta, como se passasse ficando, num ritual que se repete anualmente pela 23ª vez, cada vez com mais brilhantismo. A cavalgada é muito bonita. Fico absorto ao lado da avenida tomada. O barulhão de felicidade é ensurdecedor, mas não me impede de ouvir um som melodioso e diferenciado, gostoso, saudoso, que creio a maioria ali presente jamais ouvira. A melodia aumenta gradualmente, tão sem pressa quanto o passar dos conjuntos cavalos e cavaleiros. Fico nas pontas dos dedos olhando na direção de onde vem o som melodioso. Soberano em sua rusticidade, ocupando o meio da avenida, arrancando aplausos de permitam-me o jargão mamando a caducando, surge o velho carro de boi puxado por duas juntas bem parelhas e mansas. O som melodioso dos cocões na área urbana me transportou para as estradinhas sinuosas das serras do Vale do Rio Doce no canto da minha Minas Gerais de criança, onde carreiros e candieiros transportavam a colheita do arroz, feijão, milho e café armazenada nas tulhas para os cerealistas e, no regresso, levavam compras urbanas para os sítios e fazendas. A cavalgada é um fragmento da vida que a exemplo dela tem começo, meio e fim. O carro de boi avança rumo ao Centro de Tradições Gaúchas, ponto terminal do trajeto. Não ouço mais o som melodioso. Deixo a multidão. Pego a estrada. Rondonópolis - onde vivi ao longo de 32 anos - some no retrovisor. Enfrento o asfalto da BR-364 para Cuiabá driblando a morte a cada curva. Ao volante reflito sobre carro de boi e Rondonópolis, que fizeram parte de minha vida em épocas diferentes. Mesmo distantes e não raramente esquecidos pela minha fraqueza humana, ambos continuam em meu coração, como duas brasas sob cinza, que ao menor vento viram labaredas. EDUARDO GOMES é jornalista
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