ARTIGO
Quarta-feira, 08 de Maio de 2013, 20h:52
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CAROLINE RODRIGUES
Cuiabanês imortalizado
O tchá por Deus e espia aí serão catalogados para que as futuras gerações saibam como é o jeitinho cuiabano de falar. Em princípio pode parecer uma ação desnecessária, mas não é. No decorrer dos anos, as características regionais estão se perdendo. A falta de atenção do poder público se une à timidez do nativo, que evita usar a linguagem típica, muitas vezes com medo de ser alvo da chacota de forasteiros. Não nasci na cidade, mas como morava perto de uma comunidade ribeirinha aprendi os dizeres típicos. Um dia, estava na escola e reproduzia o palavreado quando a professora me repreendeu: Nem nasceu aqui para falar errado como cuiabano. Hoje, continuo reproduzindo o falar e tenho a certeza de que a errada era ela, que não respeitou a diferença e o povo, que a recebeu de braços abertos. Muitos cuiabanos também foram repreendidos e serviram de piada. O resultado foi a mudança de comportamento e a alteração forçada do sotaque. Alguns imitavam cariocas e outros, sulistas. Assim, além de mudarem o jeitinho de falar, perderam também a identidade. Percebi uma recente mudança de comportamento. Uma valorização maior das características regionais, porém algumas coisas estão em processo de desaparecimento. As comunidades ribeirinhas lutam para fazer com que os jovens deem sequência aos ritos locais. Mantenham a arte de fazer rede, cerâmica e viola-de-cocho, além de propagarem as delícias da comunidade e os causos, que mexem com o imaginário das crianças. A viola-de-cocho tem seu lugar na história preservado depois que ganhou o título de Patrimônio Imaterial Brasileiro em 2004. Historiadores tiveram muita dificuldade para conseguir concretizar um documento com as técnicas originais dos artífices ribeirinhos, especialista na confecção do instrumento. Temos que nos preparar, porque em um futuro próximo as crianças vão visitar exposições e ver com cara de espanto a viola, que já deu o tom de muitas rodas de siriri e cururu. Como em um filme de ficção científica, os estudantes entrarão em câmaras de recursos visuais para ver como eram as danças regionais. Outra atividade que precisa virar patrimônio é a arte de se tecer redes. Há dois anos fui a Comunidade de Limpo Grande, em Várzea Grande, conhecida pelo trabalho das rendeiras. Elas fazem belas redes com ícones mato-grossenses. De tão delicadas, dá até medo de deitar. É coisa para ficar exposta na parede da sala para encantar as visitas. Na comunidade, descobrimos que a arte de tecer uma rede está sendo perdida. As rendeiras afirmaram que as mais jovens não se interessam pelo ofício porque demora muito tempo para concluir uma peça e a venda nem sempre é vantajosa. As meninas querem ir para cidade, participar de festa. Não há mais paciência, relatou com tristeza uma tecelã. CAROLINE RODRIGUES é editora de Cidades