(...) Dessas mesmas ladroíces, que tu vês e consentes, hei de fazer um espelho em que te vejas e quando vires que és tão réu de todos esses furtos, como os mesmos ladrões, porque os não impedes, e mais que os mesmos ladrões, porque tens obrigação jurada de os impedir, então conhecerás que tanto, e mais justamente que a eles, te condeno ao inferno.(...) Sermão do bom ladrão, Padre Antonio Vieira (1655). Desde Pedro Álvares Cabral desembarcar com sua trupe atlântica em Santa Cruz de Cabrália divulga-se a boca pequena. Hoje os jornais e demais veículos de comunicação mancheteiam em letras garrafais e sons estridentes, quase diuturnamente. A corrupção grassa entre os agentes públicos, na relação quase sempre promíscua com os entes públicos por eles administrados. Em centenas de escândalos divulgados e invetigados em um sem-número de inquéritos, comissões parlamentares, controladorias e tribunais de contas, os indiciamentos e as conclusões, na maior parte das vezes, revelam que instituições governamentais têm sido usurpadas e saqueadas para beneplácito de políticos, partidos, empreiteiras, contratados e outros assaltantes do butim da res publica. Administrações diretas e indiretas, autarquias, fundações e empresas públicas são loteadas no interesse da sustentação do governante de plantão, num grande condomínio construído para gerir. Se ficasse só nisto, no poder e na influência de determinados órgãos, poderia ser até defensável. O senão é que governos, partidos, governantes e políticos, em inúmeras oportunidades, como comprovam os diversos processos condenatórios já encerrados e os que ainda tramitam, usam das empresas públicas e entes sob sua gerência e direção para obter recursos que garantam e financiem campanhas eleitorais, ou enriqueçam corruptos e corruptores. Não é aqui ou ali. Podem ser analisados e expostos casos em ministérios, palácios, secretarias, superintendência, coordenadorias Brasil afora. Pois uma inconfidência sobre esta matéria fez tremer o governo gaúcho. Um agora ex-secretário disse, em uma conversa reservada, a outro interlocutor de escol, que um banco estatal e algumas autarquias têm financiado os partidos políticos mais expressivos ao longo do tempo. Até aí nada de novo. Sempre se soube disto, só que nunca tinha havido uma confissão pública deste gênero por parte de um alto prócer, em exercício em cargo de tamanha relevância regional. Principalmente num estado que propagandeia e eleva a bandeira da lisura, da politização e principalmente, da ética na prática política. O segundo problema que tem indignado uns e outros é que a declaração era privada, mas foi gravada, tendo sido tornada pública por inconfidência de um dos interlocutores. Há revolta, processos, reclamações, repúdios, ameaças e indignação no ar no entorno do Palácio Piratini, com respingos nacionais. Contra o dirigente que gravou a conversa. Contra o ex-secretário que falou verdades infaláveis. Mas, no final disto tudo e na observação distante destes lamentáveis episódios, cada vez mais temos a convicção ou o medo de estar se aproximando a consolidação de um Estado cleptocrata. Um Estado tomado de assalto por ladravazes. Isto não só no RS, mas em inúmeros casos comprovados e denunciados de usurpação do cargo e desvio dos recursos públicos em benefícios de alguns e dos seus. Este sim deve ser sempre motivo de repulsa e indignação de nós, cidadãos. Sob pena de condenação ao inferno, como dizia o Padre Vieira. * VILSON ANTONIO ROMERO, jornalista, diretor da Associação Rio-grandense de Imprensa
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