Ontem abordei neste espaço a percepção de crise em Mato Grosso, mas numa visão de que estamos atravessando uma cordilheira. Vamos a alguns fatos, antes da abordagem principal. Mato Grosso vem crescendo a partir de 1980, quando saiu da cultura experimental e pioneira do arroz no cerrado e experimentou a soja. O mundo ainda não consumia soja no conjunto de tantos processos industriais e alimentares como hoje. A soja assumiu esse papel tão determinante a partir dos anos 90. Mato Grosso pegou a onda e veio crescendo, com altos e baixos, mas aproveitou a onda. Os cerrados foram incorporados à produção e receberam tecnologias aprendidas no sofrimento e nas experimentações. Foi um longo caminho. Atrás da soja vieram o algodão, o milho, sorgo, milheto e feijão. Passou a primeiro produtor brasileiro de grãos. A pecuária deu saltos de qualidade e o rebanho do estado tornou-se o maior do país. Tudo isso surfando numa onda nacional e mundial de crescimento econômico. No período, houve sucessivas crises, que a produção contornou, sacrificando ao longo do caminho um montão de gente bem intencionada. Em 2005 outra crise veio na madeira e no agronegócio. Na verdade, foram crises distintas que derrubaram a economia mato-grossense no seu efeito cascata. Pois bem. Vem a crise de 2008 com desdobramentos imprevisíveis em 2009 e 2010. Muita gente vai superar a fase, e muita gente não. No caminho certamente restarão os cadáveres das boas intenções de quem lutou bravamente enquanto pôde. Outros sairão da fase mais maduros, mesmo que marcados por cicatrizes do aprendizado. Sempre foi assim. Nunca foi, não é, e não será diferente desta vez. O mundo está passando por um funil longo e estreito. Mais hora menos hora ele afunilará aqui também. Imagino que em proporções muito menores porque temos uma economia menos complexa do que a dos países desenvolvidos e industrializados. Dito isto, quero tecer mais um comentário. O governo de Mato Grosso viu a sua receita tributária cair e pôs a Secretaria de Fazenda em campo para pressionar e apertar os comerciantes e outros setores produtivos. Isso vai funcionar até um limite. Depois, será preciso parar a locomotiva do governo para dar o braço à locomotiva dos negócios privados. Um depende do outro. Não tem como ser diferente. Volto ao começo da nossa conversa. Até agora o governo estadual arrecadou ao longo desses mais de 30 anos. Devolveu menos do que arrecadou. Na fase atual, precisará redefinir-se, ver a sua realidade, descer da comodidade pública e encarar uma gestão pública adequada ao novo momento. Não adianta sufocar quem produz para salvar a máquina pública. Se o Estado e a economia não se derem as mãos em franca cooperação, a passagem da cordilheira será quase impossível. A pergunta é: que tipo de mundo vem aí depois de 2009 e de 2010? Ninguém sabe. Mas se sabe que será um mundo mais aberto, mais claro, mais eficiente, mais consciente e mais humanizado. Tenho a nítida convicção de que em Mato Grosso será possível estabelecer esse pacto de cooperação pela salvação de todos. Tanto pela diversidade de sua população, como pela vasta experiência sobre a região como pelo alcance das tecnologias existentes e à disposição. O mais, o futuro próximo ensinará! * ONOFRE RIBEIRO é articulista do Diário de Cuiabá e da Revista RDM
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