Depois da casa arrombada, coloca-se a tranca. O provérbio português espelha com perfeição a situação da guerra urbana travada no estado de São Paulo entre integrantes do crime organizado, leia-se PCC (Primeiro Comando da Capital), e policiais civis e militares. Só depois de contabilizar quase 100 policiais mortos, de janeiro até agora, é que o governo de São Paulo decidiu unir forças com o governo federal para finalmente assumir a crise na segurança pública e partir para a ação, começando pela transferência de líderes do PCC para presídios federais. Tal decisão, no entanto, ocorreu depois de três dias de bate-boca entre autoridades federais e estaduais, e o acordo foi selado em conversa direta entre o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin e a presidente Dilma Rousseff, colocando um ponto final na pendenga entre o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Antonio Ferreira Pinto e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Nas últimas semanas os dois protagonizaram um embate através da mídia sobre o cenário da violência em São Paulo. O ministro disse que as propostas de ajuda oferecidas por ele várias vezes foram recusadas. Já o secretário de Segurança minimizou as propostas afirmando que elas não passavam de oportunismo barato e provocação e que o Palácio do Planalto queria superdimensionar o cenário de São Paulo para desconstruir a segurança pública do Estado. Em meio a essa fogueira de vaidades, os números da violência se multiplicavam. A batalha contra o crime organizado em São Paulo não é nova. Ao longo dos últimos anos rendeu muitas mortes. Em alguns momentos o clima se torna mais ameno, como uma calmaria. Mas é apenas um tempo para que se recarregue as baterias e a tempestade venha com força total, tal qual vem acontecendo nos últimos meses, com ataques diários em vários pontos do Estado. As autoridades têm ciência do que ocorre nos presídios, de onde saem as ordens para a execução de policiais civis e militares, e deveriam adotar providências para evitar tanta violência. A demora para assumir a crise resultou em muitas perdas e não apenas de policiais, mas também de pessoas que as estatísticas consideram simplesmente que elas estavam no local errado, na hora errada. O esforço concentrado, que agora o governo de São Paulo decidiu realizar, chega tarde para muitas famílias que perderam pais, filhos, irmãos, sobrinhos e também amigos nessa guerra urbana. Mas com certeza pode evitar muitas outras mortes. Num momento como esse, assumir que precisa de ajuda não significa ser fraco para derrotar o inimigo, mas sim que a luta pela vida está acima de qualquer diferença política. TÂNIA NARA MELO é editora de Opinião do Diário
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