ARTIGO
Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010, 20h:20
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DIANA GRAÇA
Cáceres e a Copa do Mundo de 2014
O que determina o destino de uma cidade? O Brasil tem muitas cidades com um charme particular para atrair visitantes. A bicentenária Cáceres (210 km a sudoeste de Cuiabá) é uma delas, porém, por que a Princesinha do Paraguai, repleta de belezas naturais e monumentos históricos, esta tão apagada no cenário mato-grossense? Nem sempre foi assim. No início do século XX, quando a navegação fluvial ligava o Centro-Oeste ao resto do país e do mundo, cidades como Cáceres tiveram seu esplendor. Os navios que levavam para a Europa riquezas como o charque e a poaia voltavam carregados de mercadorias finas. Cáceres foi deixando de ser um vilarejo e, aos poucos, os imigrantes mais empreendedores foram prosperando longe da sede e novos municípios foram criados, acarretando perda de poder político e econômico para Cáceres. Hoje, o município sofre com certo atraso cultural, apesar de ser sede da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). Cáceres não acompanhou o ritmo de municípios mais recentes que basearam sua economia na agricultura e se tornaram locomotivas do agronegócio. É como se a cidade tivesse parado no tempo. A predominância de latifúndios influenciou a estrutura social do município, dominada por traços do coronelismo. Tudo isso contribui para retardar o processo de evolução, pois é como se cada um pensasse apenas no seu curral. A cidade planejada do passado hoje carece de uma gestão urbanística mais atuante. O município foi construído abaixo do nível do rio e tem dificuldades para o escoamento da água da chuva, o que provoca enchentes. Não há sistema de saneamento básico e o esgoto é jogado in natura no rio Paraguai. Nesse contexto surge um desafio: como oferecer melhores condições de vida à população preservando as belezas do passado? Um bom exemplo desse conflito é a Ponte Branca (1909/1910) - demolida em 1998 contra a vontade da maioria da população para viabilizar a canalização do córrego Sangradouro. Isso nos remete a uma nova questão: não seria possível fazer um projeto de desenvolvimento em que não fosse preciso destruir os ícones do passado? Paris seria Paris sem suas pontes medievais? Nos anos 80, a Prefeitura de Cáceres começou a ver o turismo como alternativa para o progresso de uma cidade com tantos atrativos naturais e uma história tão rica. Investir na indústria sem chaminé seria uma forma de garantir o crescimento socioeconômico da região, possibilitando geração de empregos e distribuição de renda mais justa. Em 1997, criou-se a Secretaria de Turismo e Meio Ambiente (Sematur) e se investiu na capacitação de mão-de-obra e estruturação dos atrativos para transformação em produtos turísticos. Essa onda de turismo conquistou a população, que foi estimulada a reformar seus imóveis, conservando as características arquitetônicas, para receber os turistas em sua cidade como se fosse em sua casa. Esse movimento tinha seu apogeu na preparação do Festival Internacional de Pesca. Infelizmente esse esforço de projeção do turismo não teve continuidade. Faltaram visão, comprometimento com o interesse público e paixão, acima de picuinhas e vaidades políticas. Poucos administradores conseguem reconhecer o turismo como a verdadeira fonte de renda que é desde que seja trabalhado como um negócio de fato. Com a escolha de Mato Grosso como subsede da Copa do Mundo de 2014, Cáceres tem nova chance de mudar o seu destino. A disputa no estado pelos turistas será acirrada, o que implica a necessidade de investimentos e o planejamento de roteiros turísticos para atrair visitantes. Como pontos a favor, Cáceres tem a localização, sua história, a hospitalidade do povo, atrativos naturais e principalmente o acesso ao Pantanal. Mas isto não pode começar a ser feito amanhã. Se Cáceres não acordar e se engajar a tempo no projeto da Copa 2014, corre o risco de ser a eterna Bela Adormecida. Cáceres merece muito mais! Precisamos nos orgulhar de ter orgulho de ser cacerenses! *DIAN GRAÇA é aluna do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFMT e cacerense.