MARCELO P. DE BARROS
Algumas intervenções públicas com foco em alterações do ambiente físico podem ser formas de implementar políticas de saúde. Em Cuiabá, por exemplo, a construção de parques públicos nos últimos anos proporcionou condições da população se exercitar refletindo em impactos positivos no setor da saúde. Uma atividade física regular diária de pelo menos 30 minutos, segundo recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), dependendo do tipo e intensidade, pode reduzir riscos de doenças cardiovasculares e diabetes, melhorar o estado funcional de idosos, além de benefícios em relação a outros males associados à obesidade. No entanto, além dos exames médicos necessários para se começar uma atividade, neste período de seca outro fator importante para a prática saudável de exercícios físicos tem sido negligenciado pelos cuiabanos: as condições climáticas do ambiente. Um estudo recente do Programa de Pós-Graduação em Física Ambiental da UFMT verificou que alguns dos lugares destinados ao lazer da população podem levar os organismos de usuários destes espaços a um estado denominado por estresse térmico. Situações extremas de estresse por calor que acometem atletas ou trabalhadores em ambientes quentes podem levar a queda de desempenho ao longo da sua atividade, ou ainda, a longo prazo, apresentar algum dano físico mais sério como exaustão, tonturas, desmaios, choques térmicos, coma e até morte. O estudo realizado na Praça do Cerrado, na entrada principal do Parque Mãe Bonifácia, indicou como satisfatórias as condições térmicas do lugar para a realização de atividades físicas na estação chuvosa, porém, na estação seca, os resultados mostraram um ambiente térmico bastante prejudicado. A avaliação das condições ambientais, realizada conforme normas nacionais e internacionais para atividades em ambientes quentes, sugere que na estação seca, já nas primeiras horas da manhã, a baixa umidade relativa e a elevada temperatura do ar associadas a intensa radiação solar destes dias sem nuvens tornam as condições do ambiente desfavoráveis para o desempenho de qualquer nível de atividade física. Atividades físicas nestas condições, mesmo que não recomendáveis, devem ser realizadas respeitando os cuidados de utilizar roupas leves que reduzam a taxa metabólica do organismo, de ingerir muita água para manter o organismo hidratado e de alternar períodos curtos de atividades de baixa intensidade com outros de descanso, isso mesmo nas horas mais amenas do dia. Apesar do resultado insatisfatório encontrado para o ambiente térmico da Praça do Cerrado, o estudo confirma o Parque Mãe Bonifácia como uma verdadeira ilha de frescor para a região. Nas trilhas internas do Parque, em que as alterações urbanísticas respeitaram a conformação do cerrado do lugar, especialmente nas trilhas mais estreitas próximas ao córrego que atravessa o lugar, a temperatura do ar apresentou atenuação da ordem de até 4 °C com relação a pontos externo ao Parque. A modificação da paisagem natural incorpora energia ao sistema em níveis maiores, produzindo uma nova condição climática que afeta de forma direta a qualidade de vida dos habitantes das cidades. Os resultados deste trabalho apontam para a necessidade de criar espaços que considerem, além das características da vida do lugar, a relação entre o espaço construído e o clima da região. Neste momento em que repensamos as construções da nossa cidade para um evento internacional que se aproxima, é preciso nos atentarmos a resultados de estudos como este na área do conforto térmico ambiental. Assim, poderemos oferecer para os nossos visitantes e para os cuiabanos, já não tão aclimatados as atuais condições, espaços com as características do nosso clima, quentes, porém agradáveis. * MARCELO PAES DE BARROS, Professor universitário, doutorando em Física Ambiental
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