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ARTIGO
Quarta-feira, 25 de Junho de 2008, 21h:22

AÉCIO MONTEZUMA

A hipocrisia e o clientelismo

O título ora expresso bem que poderia encabeçar um daqueles contos triviais que enriquecem a rotina das redações literárias da mídia mundial. Mas, não é. Ele nos remete à dura realidade vivida pela baixa camada da população deste rico país. Em vinte e seis anos de Polícia Civil deste Estado, venho nitidamente observando o movimento das causas do crime ou onde nasce a violência propriamente dita, diferenciando porém, que crime é crime e violência é violência, com todas suas nuances e modalidades. No cotidiano das delegacias é possível constatar que os crimes, principalmente aqueles contra a vida, tornaram-se bastante banais, ou seja, hoje mata-se por qualquer, ou sem motivo, até mesmo pelo simples prazer de tirar a vida do seu semelhante. Esse fenômeno atinge principalmente a juventude, cujos valores morais foram deturpados a partir de alguns anos para cá. Alguns intelectualóides impingem culpa na falta de políticas públicas advindas dos governos. Pode ser, haja vista que, à bem da verdade, “nunca na história deste país...” existiu tanto casuísmo voltado para o epicentro dos interesses sociais, quais sejam, saúde, educação e segurança. O que mais existem são estórias pra boi dormir e clientelismo barato encabeçado pelo governo federal, isto sem falar que também, “nunca na história deste país...” tivemos tantos ladrões de casaca, ora travestidos de políticos, mensaleiros ou “amigos” do presidente. Temos até a mágica (única no mundo), onde um assalariado estagiário filho de presidente, transforma-se num estalar de dedos, em sócio de uma multinacional da telefonia. Mas, voltando aqui pra baixo, dias atrás, num plantão noturno no CISC onde trabalho, eis que assisti o depoimento “in off” de um casal de adolescentes – 15 e 16 anos – apreendidos quando faziam uso de entorpecente numa praça do CPA II. Em geral, nesses casos logo se imagina que ambos devam praticar pequenos furtos para comprar a “droga”, porém naquele caso não. Eles, nada mais nada menos, são clientes do programa do Governo Federal que dá dinheiro para que o jovem possa estudar. No caso em voga, o casal em epígrafe tinha acabado de receber numa casa lotérica os proventos inerentes de tal programa e logo, mais que depressa, foram comprar entorpecente com o dinheiro, sem contar que, pouco antes da polícia os deter, ambos já tinham ingerido boa quantidade de bebida alcoólica. Também existe um caso do garoto que “economizou” o dinheiro de três meses para daí adquirir um revólver e logo mais sair para praticar “assaltos” na região. Bem, de minha vez, curioso com os fatos, saí para pesquisar em campo, a fim de saber como funciona esse programa do governo, que fornece dinheiro para o indivíduo formatar seu aprendizado escolar. Estarrecido, tomei conhecimento de que nas Escolas onde o programa está instalado, as salas estão abarrotadas de alunos, mas só no papel, pois na realidade, pelo que vi e ouvi, lá estavam somente cinco ou seis alunos assistindo as aulas. Quanto aos demais, estes quando vão à Escola, tão somente “mostram a cara” na sala e depois saem para a rua e enchem os botecos e bares do bairro. Aí, perguntei: - porque tais alunos não são desligados do programa? Tristemente, da professora veio a resposta: “... É em razão de que somos apenas contratadas e se anotarmos faltas no diário, simplesmente a sala fecha e nós perdemos o emprego...”. E assim, o círculo vicioso se fecha. O Governo Federal aos poucos vai criando bandidos e alimentando o tráfico de drogas. Como os “di menor” são protegidos por Lei, nada mais resta à Polícia do que fazer seu pífio trabalho e assistir de cadeira essa vergonha nacional. Viva a democracia! * AÉCIO MONTEZUMA é escrivão de polícia – Cisc/Norte [email protected]

Edição EDIÇÃO 16961




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