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Cuiabá MT, Sexta-feira, 05 de Junho de 2026

ARTIGO
Sexta-feira, 05 de Junho de 2026, 08h:18

GONÇALO DE BARROS

A genialidade em demasia

Fazemos malabarismos entre trabalho, estudos e relacionamentos

Dentre as obras que desafiam a passagem dos anos, raras permanecem tão relevantes quanto a “Ética a Nicômaco”, escrita pela genialidade de Aristóteles. 

Redigida há mais de dois milênios, a obra provoca uma reflexão crucial: como é que se dá a arte de viver com qualidade?

Existir não se resume apenas a desfrutar de comodidades ou triunfos, mas sim a vivenciar com toda a profundidade da humanidade.

Aristóteles percebe que toda empreitada humana tem como destino um propósito positivo.

Fazemos malabarismos entre trabalho, estudos e relacionamentos, sempre em busca de um tesouro que julgamos precioso! 

De acordo com ele, existe uma força suprema que dá significado a todas as outras coisas.

Eudaimonia, que frequentemente se veste de felicidade, carrega consigo um significado bem mais rico e intricado. Não se trata de uma satisfação fugaz, mas sim de uma jornada repleta de boas ações. 

Essa concepção destaca Aristóteles como uma estrela solitária em meio a constelações de perspectivas modernas.

Nos dias de hoje, a alegria muitas vezes se entrelaça com a compra, o brilho das conquistas ou a maratona de vivências acumuladas.

A razão que reina por aqui transforma a existência em uma maratona de impulsos velozes e desejos intermináveis.

Aristóteles propõe que a alegria verdadeira surge de uma existência orientada pela razão e princípios éticos, ao invés de ser um mero lampejo de felicidade passageira. 

A moralidade dele se desenha em torno da boa índole. Aristóteles, com seu jeito direto, revela que a virtude não vem de berço; é como uma planta que precisa de cuidados diários para florescer nas experiências que a vida oferece. 

A gente se transforma em seres justos quando vestimos a toga da honestidade, em valentes ao dançarmos com os temores de maneira harmoniosa, e em sábios ao tomar decisões com a cabeça no lugar. A ética não se resume a um conceito abstrato, mas é como um tempero que a gente mistura no dia a dia. 

Sua criação mais conhecida é o conceito do “caminho do meio”. A sabedoria dança entre os excessos. A bravura dança entre a falta de ousadia e a imprudência; a benevolência balança entre a mesquinhez e o esbanjamento.

A moral de Aristóteles serve como um freio contra a balança torta de nossos dias. Ela se recorda de que uma vida boa é como um malabarista equilibrando pratos, exige reflexão e um toque de prudência

Não sugere um marasmo ou uma posição neutra, mas sim uma dança sensata entre os sentimentos do ser humano. 

O sujeito de boa índole não apaga os sentimentos; ele descobre como dar a eles uma nova direção. 

Essa perspectiva é extremamente moderna. Estamos mergulhados em um mar de exageros: uma avalanche de informações, opiniões fervilhando, exposição em alta e a velocidade de um foguete. A discussão na praça gira entre extremos vibrantes. 

A moral de Aristóteles serve como um freio contra a balança torta de nossos dias. Ela se recorda de que uma vida boa é como um malabarista equilibrando pratos, exige reflexão e um toque de prudência. 

Um ponto fundamental da criação é seu campo político. Aristóteles enxerga a humanidade como um pedacinho de um grande quebra-cabeça, e não como uma peça solta em um canto. O ser humano é como um “bicho social”, feito para habitá-la em coletividade. 

A moralidade dança nos bailes da convivência social. Uma comunidade equilibrada se apoia na educação ética dos indivíduos e em organizações que promovam valores nobres. 

A ligação entre moral e administração ressalta o valor das ideias de Aristóteles em momentos de turbulência nas instituições. O pensador acreditava que regras sozinhas não são capazes de dar alicerce a uma verdadeira convivência. 

Nenhum governo se mantém firme se seus integrantes não se comportarem com integridade. Quando a moral de um indivíduo começa a desmoronar, é como se uma onda de má sorte balançasse toda a sociedade. 

Talvez aí resida a essência da “Ética a Nicômaco”. Aristóteles não apresenta uma caixinha trancada, mas sim contempla a dança da vida.

Sua maneira de ver a vida não promete um final de conto de fadas, mas sim um caminho cheio de conquistas. Não busca eliminar as desavenças entre as pessoas, mas mostrar o caminho para lidar com elas. 

Depois de mais de dois milênios, a sua indagação continua ecoando: que tipo de existência realmente merece ser vivida?

É por aí...

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO é juiz, tem formação em Filosofia, Sociologia e Direito.


Edição EDIÇÃO 16956




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