Dentre as obras que desafiam a passagem dos anos, raras permanecem tão relevantes quanto a “Ética a Nicômaco”, escrita pela genialidade de Aristóteles.
Redigida há mais de dois milênios, a obra provoca uma reflexão crucial: como é que se dá a arte de viver com qualidade?
Existir não se resume apenas a desfrutar de comodidades ou triunfos, mas sim a vivenciar com toda a profundidade da humanidade.
Aristóteles percebe que toda empreitada humana tem como destino um propósito positivo.
Fazemos malabarismos entre trabalho, estudos e relacionamentos, sempre em busca de um tesouro que julgamos precioso!
De acordo com ele, existe uma força suprema que dá significado a todas as outras coisas.
Eudaimonia, que frequentemente se veste de felicidade, carrega consigo um significado bem mais rico e intricado. Não se trata de uma satisfação fugaz, mas sim de uma jornada repleta de boas ações.
Essa concepção destaca Aristóteles como uma estrela solitária em meio a constelações de perspectivas modernas.
Nos dias de hoje, a alegria muitas vezes se entrelaça com a compra, o brilho das conquistas ou a maratona de vivências acumuladas.
A razão que reina por aqui transforma a existência em uma maratona de impulsos velozes e desejos intermináveis.
Aristóteles propõe que a alegria verdadeira surge de uma existência orientada pela razão e princípios éticos, ao invés de ser um mero lampejo de felicidade passageira.
A moralidade dele se desenha em torno da boa índole. Aristóteles, com seu jeito direto, revela que a virtude não vem de berço; é como uma planta que precisa de cuidados diários para florescer nas experiências que a vida oferece.
A gente se transforma em seres justos quando vestimos a toga da honestidade, em valentes ao dançarmos com os temores de maneira harmoniosa, e em sábios ao tomar decisões com a cabeça no lugar. A ética não se resume a um conceito abstrato, mas é como um tempero que a gente mistura no dia a dia.
Sua criação mais conhecida é o conceito do “caminho do meio”. A sabedoria dança entre os excessos. A bravura dança entre a falta de ousadia e a imprudência; a benevolência balança entre a mesquinhez e o esbanjamento.
A moral de Aristóteles serve como um freio contra a balança torta de nossos dias. Ela se recorda de que uma vida boa é como um malabarista equilibrando pratos, exige reflexão e um toque de prudência
Não sugere um marasmo ou uma posição neutra, mas sim uma dança sensata entre os sentimentos do ser humano.
O sujeito de boa índole não apaga os sentimentos; ele descobre como dar a eles uma nova direção.
Essa perspectiva é extremamente moderna. Estamos mergulhados em um mar de exageros: uma avalanche de informações, opiniões fervilhando, exposição em alta e a velocidade de um foguete. A discussão na praça gira entre extremos vibrantes.
A moral de Aristóteles serve como um freio contra a balança torta de nossos dias. Ela se recorda de que uma vida boa é como um malabarista equilibrando pratos, exige reflexão e um toque de prudência.
Um ponto fundamental da criação é seu campo político. Aristóteles enxerga a humanidade como um pedacinho de um grande quebra-cabeça, e não como uma peça solta em um canto. O ser humano é como um “bicho social”, feito para habitá-la em coletividade.
A moralidade dança nos bailes da convivência social. Uma comunidade equilibrada se apoia na educação ética dos indivíduos e em organizações que promovam valores nobres.
A ligação entre moral e administração ressalta o valor das ideias de Aristóteles em momentos de turbulência nas instituições. O pensador acreditava que regras sozinhas não são capazes de dar alicerce a uma verdadeira convivência.
Nenhum governo se mantém firme se seus integrantes não se comportarem com integridade. Quando a moral de um indivíduo começa a desmoronar, é como se uma onda de má sorte balançasse toda a sociedade.
Talvez aí resida a essência da “Ética a Nicômaco”. Aristóteles não apresenta uma caixinha trancada, mas sim contempla a dança da vida.
Sua maneira de ver a vida não promete um final de conto de fadas, mas sim um caminho cheio de conquistas. Não busca eliminar as desavenças entre as pessoas, mas mostrar o caminho para lidar com elas.
Depois de mais de dois milênios, a sua indagação continua ecoando: que tipo de existência realmente merece ser vivida?
É por aí...
GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO é juiz, tem formação em Filosofia, Sociologia e Direito.




