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Cuiabá MT, Sexta-feira, 12 de Junho de 2026

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Sábado, 09 de Outubro de 2010, 12h:28

ENTREVISTA

Taques diz que precisa de humildade

Considerado fenômeno na eleição de domingo passado, o senador eleito Pedro Taques fala das primeiras impressões sobre o futuro mandato

ANA ROSA FAGUNDES
Da Reportagem
“O meu nome é Pedro Taques. O meu número é 1, 2, 3”. Essas duas orações eram certeiras em qualquer fala do ex-procurador da República, eleito senador por Mato Grosso com 708.440 votos. Apesar de não ter o traquejo dos experientes políticos, as intenções dele eram boas. Foi acreditando nessas intenções e na sua capacidade que a candidatura ganhou o povo. Segundo Taques, no começo da campanha ele achava que seus eleitores pertenciam às classes mais altas. Pesquisas internas mostraram depois que seus eleitores eram aqueles que ganhavam até cinco salários mínimos. “Aquele que acorda de manhã, passa manteiga no pão antes de trabalhar”, ele costumava dizer. Como procurador de Ministério Público Federal em Mato Grosso, foi um dos principais responsáveis pela prisão do bicheiro João Arcanjo Ribeiro, um dos chefes do crime organizado em Mato Grosso. Com discurso de combate à corrupção e a bandeira de lutar pelo fim da imunidade parlamentar, Taques ganhou força aos poucos e arrancou na reta final, deixando para trás grandes nomes como o ex-senador Antero Paes de Barros (PSDB) e o deputado federal Carlos Abicalil (PT). No começo da campanha, não conseguia sair do quarto lugar nas pesquisas de intenção de votos. Agora, diante do segundo turno presidencial, aliados tucanos e petistas buscam apoio do “fenômeno”. Ele, porém, já se mostrou ressentindo com a postura do PT com relação a ele e ao seu candidato ao governo Mauro Mendes (PSB), que foram desprestigiados por Dilma Rousseff, mesmo PDT e PSB compondo o arco de aliança da ex-ministra. Nesta semana, ele concedeu a seguinte entrevista ao Diário: DIÁRIO DE CUIABÁ - A eleição deste ano mostrou que o senhor foi muito bem votado na Grande Cuiabá e em cidades maiores, mas teve baixa penetração em municípios pequenos. Concentrar a campanha em grandes centros foi uma estratégia para driblar a falta de dinheiro? PEDRO TAQUES – Sim! Nós não visitamos 35 municípios porque não tivemos condições, por isso essa votação menor nas cidades menores. Também temos que entender que nos municípios menores existe muita antena parabólica e o programa eleitoral na TV não é veiculado. Onde existe antena parabólica, capta sinal de São Paulo, Goiás. Isso ocorre muito na região leste do nosso Estado, então infelizmente nossa campanha não conseguiu chegar a esses municípios. DIÁRIO - Essa baixa penetração no interior não seria algo ruim para suas pretensões futuras? TAQUES - A minha pretensão futura é servir ao estado de Mato Grosso, defender no Senado da República os 141 municípios do nosso Estado, independente da votação que eu tive em cada cidade. A eleição acabou no domingo e eu sou um senador eleito, eu quero conversar com vereadores e prefeitos independente se eles me apoiaram ou não. A população desses municípios, que não votou em mim, ela tem direito, por isso eu a respeito. Eu vou trabalhar pelos 141 municípios, independente de número de votos. A minha pretensão é ser um servidor público que orgulha meu patrão, que é a população. DIÁRIO - O senhor começou a campanha em terceiro lugar nas pesquisas e foi crescendo aos poucos, até disparar na reta final. O senhor consegue identificar em que momento da campanha sentiu que poderia ganhar, que tinha virado para cima de Carlos Abicalil? TAQUES - Desde que saí do Ministério Público Federal, no dia 23 de março deste ano, eu tinha compreensão de que seria possível a eleição. Eu acreditei em Deus e no eleitor mato-grossense e falei a verdade na televisão. Eu sempre tive essa compreensão e tive paciência, paciência, paciência... É lógico que em determinados momentos você fica preocupado sobre sua mensagem não estar chegando à população por falta de condições. Mas se você analisar, onde a minha mensagem chegou, eu tive uma votação interessante. DIÁRIO - A briga entre Antero Paes de Barros e Carlos Abicalil em torno do tema aborto favoreceu a sua campanha? PEDRO - Sim, mas eu entendo que vários fatores favoreceram. Esse embate entre os dois está incluído. Mas reduzir a vontade de 708.440 mil eleitores a apenas esse fator é muito difícil. Eu quero agradecer a esses eleitores com toda a humildade, dizer muito obrigado por a população mato-grossense entender a nossa mensagem. Mas dizer que foi só em razão desse embate entre os dois é falta de entendimento do processo eleitoral. DIÁRIO - O debate eleitoral neste segundo turno presidencial tem sido pautado pela religião - por ser contra ou a favor do aborto e do casamento entre homossexuais. O senhor não acha perigoso para um país definir sua eleição com base no critério meramente religioso? TAQUES - Entendo que a religião é importante. Numa democracia a maioria vence respeitando os direitos das minorias. Todos os debates devem vir à tona no momento da eleição, inclusive esse, mas não pode ser apenas um debate. Não podemos ter uma eleição presidencial pautada por uma discussão monotemática. Precisamos ter vários temas, porque um presidente da República vai tratar de uma gama de assuntos. Então, eu entendo que um debate só com um discurso não é interessante. É interessante que todos os temas, inclusive esse, possam vir à discussão. DIÁRIO - Um dia após a eleição, o senhor disse que seria um “soldado” de Mauro Mendes na luta pela eleição para prefeito ou governador. Não acha que, dada sua votação, o mais correto seria ele ser um “soldado” seu a partir de agora? TAQUES - Nós não podemos ter vaidade neste momento. Eu sou uma pessoa que quer trabalhar pelo desenvolvimento do Estado. Eu não deixo companheiro na chuva. Eu ganhei a eleição, Mauro Mendes, infelizmente, pela vontade do eleitor, não ganhou a eleição. Nós temos que respeitar a vontade do eleitor. O que eu quero dizer usando essa expressão [soldado] é que nós vamos trabalhar juntos pelo desenvolvimento do Estado de Mato Grosso. Isso, só isso! DIÁRIO - A propósito, tem pretensões de se candidatar a um cargo do Executivo? TAQUES - Hoje eu quero agradecer ao eleitor mato-grossense, expressar a ele minha gratidão e dizer que tenho uma grande responsabilidade de ser um senador que possa refletir a vontade do eleitor. Eu quero só trabalhar como senador, não tenho pretensão nenhuma. DIÁRIO - Mas não existe resistência ou preconceito da sua parte em ocupar cargo no Executivo? TAQUES - Nenhum preconceito contra cargo Executivo, mas quero ser senador pelo Estado de Mato Grosso. DIÁRIO - Nesta semana, o senhor esteve em Brasília. Qual foi sua primeira impressão sobre o Senado e os futuros colegas? TAQUES - Eu fui ter uma conversa com o ministro [Carlos] Lupi [presidente licenciado do PDT nacional] e com a bancada do PDT no Senado. Fui chamado pelas lideranças do partido. Fui lá, conversei com o ministro, conversei com alguns senadores e aproveitei para fazer uma visita aos três senadores de Mato Grosso: Serys Slhessarenko, Jayme Campos e Gilberto Goellner. Fiz também uma visita ao Gilmar Mendes, que é ministro do Supremo Tribunal Federal, e só isso. A impressão que eu tive foi a mesma, de que preciso trabalhar e ter muita humildade para exercer esse cargo tão importante para o estado de Mato Grosso. DIÁRIO - E como foi a conversa com o ministro? Qual será sua posição neste segundo turno presidencial? TAQUES - Expressei ao ministro Lupi que eu sou um senador eleito partidário, estou no PDT não por imposição, mas porque eu gosto do programa do PDT, acredito no programa do PDT, eu sou um homem de partido. O PDT faz parte da coligação que sustentou o presidente Lula, é um companheiro de primeira hora da Dilma. Só que a candidata Dilma veio duas vezes a Cuiabá e não soube da minha existência. Então, antes que eu possa declarar apoio a ela, ela deveria ter tido aqui uma participação menos parcial. Lógico que ela tinha legitimidade para apoiar o candidato do PT, eu respeito essa posição, mas eu faço parte da base de sustentação do governo Lula. Existia um acordo nacional para que estes partidos que fazem parte da coligação fossem prestigiados. Ela não visitou alguns estados, como Maranhão, em que existiam candidatos da base do governo Lula. Eu respeito a candidata Dilma, eu apoio o governo Lula porque eu faço parte desta coligação. Mas eu me sinto no direito de primeiro conhecer o programa da Dilma para eu decidir quem vou apoiar. Vou fazer isso de uma forma partidária na semana que vem, conversar com o presidente do PDT, com o grupo que nos sustenta politicamente neste Estado para que nós possamos decidir isso, sem qualquer preocupação. DIÁRIO - O senhor não sabe ainda se vai pedir voto para ela? TAQUES - Hoje eu diria a você que estou analisando o que eu vou fazer. Eu quero conhecer as ideias dela. Como ela não conheceu as ideias do candidato Pedro Taques, só conheceu as ideias dos candidatos Blairo Maggi e Carlos Abicalil, o que eu acho legítimo da parte dela. Eu preciso analisar o quadro junto com meu grupo, o grupo do qual eu faço parte em Mato Grosso. DIÁRIO - Sua propaganda eleitoral tratou bastante da proposta de se acabar com a imunidade parlamentar. Fazer o projeto é fácil. Mas como convencer a classe política brasileira de que é preciso acabar com a imunidade parlamentar? E como conseguir votos suficientes, já que este é um tema constitucional e, por isso, requer 3/5 dos votos nas duas Casas? TAQUES - Ninguém faz nada sozinho, mas alguém precisa começar a puxar essa ideia. Se você ficar preocupado se vai dar certo ou se não vai dar certo, muitas coisas não seriam feitas. Eu não teria feito faculdade em São Paulo; não teria feito concurso para procurador da República; não teria participado de uma investigação com colegas do estado de Mato Grosso valorosos, e aqui combatido a corrupção. Se eu ficasse pensado se daria não ou certo não, teria saído do Ministério Público, se eu ficasse pensando se daria não ou certo, eu não seria senador. Os obstáculos existem para ser superados. Lógico que eu não vou dizer que vou fazer isso sozinho, nunca disse, isso precisa de quórum constitucional. Então, eu vou levar essa discussão e junto com outros colegas vamos fazer entender que o momento que vivemos no Brasil é outro, não é o momento de político que não presta, de político que rouba, tanto que eu fui eleito com esta votação. Eu não fui eleito porque sou o mais bonito, porque sou o mais inteligente ou o mais rico. Fui eleito porque o povo entendeu que o que eu estava falando era verdade e existe a possibilidade de que estes nossos sonhos sejam transformados em realidade. DIÁRIO - O senhor é um conhecedor das leis, ex-membro do MPF e professor de Direito. Mas é um novato em eleição. O que a campanha eleitoral ensinou ao ex-procurador Pedro Taques? TAQUES - Eu conheci pessoas muito boas na política, pessoas que queriam servir à sociedade, pessoas que nem precisariam estar na política. Mas conheci também pessoas que não prestam, pessoas que só querem pedir dinheiro, pessoas interesseiras. Conheci também esse lado. Mas eu penso que no final a maioria esmagadora da população quer uma sociedade melhor, a maioria esmagadora da população são pessoas boas, querem trabalhar, desenvolver o Estado e querem um Mato Grosso melhor. Então eu saio dessa eleição melhor do que entrei. Saio dessa eleição pessoalmente melhor, porque descobri algumas falhas minhas, alguns defeitos que eu tenho e esses defeitos pude consertar durante o processo eleitoral.

Edição EDIÇÃO 16961




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