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Cuiabá MT, Quarta-feira, 17 de Junho de 2026

Primeira Página
Sábado, 07 de Março de 2009, 12h:37

ENTREVISTA

Serys: a referência da defesa da mulher

Neste Dia Internacional da Mulher, o Diário entrevista a senadora Serys Slhessarenko, que detalha os avanços das políticas públicas à mulher

SONIA FIORI
Da Reportagem
A história política da senadora Serys Slhessarenko (PT), neste Dia Internacional da Mulher, é uma referência de luta que faz a diferença numa sociedade ainda norteada de amarras e preconceitos que limitam a ampliação do espaço destinado às mulheres. Serys é a primeira mulher do estado de Mato Grosso nos cargos que hoje exerce no cenário nacional – tanto no Senado quanto na segunda-vice-presidência da Mesa Diretora do Senado. Ela foi também relatora da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), quando conseguiu imprimir no texto da Lei a implantação de avanços às políticas públicas para a classe feminina. No Congresso, a senadora também assumiu a coordenação da bancada das representantes femininas do Senado, que permite “fechar questão” em torno de projetos considerados importantes para a mulher. Segundo ela, a estratégia tem dado certo, já que cabe a cada uma delas levar o discurso em prol da classe junto as respectivas bancadas partidárias. Nesta entrevista ao Diário, a senadora destaca os avanços à mulher que começam a promover transformações – como a Lei Maria da Penha. Porém, também reconhece que ainda é pouco. Para ela, o enfrentamento às barreiras pode ser feito a partir da ampliação da luta, com expansão da organização entre as mulheres e ainda com o reconhecimento dos homens sobre a necessidade de se estabelecer uma relação de igualdade. Serys também analisa o Programa de Eleição Direta (PED) do PT e ainda o processo sucessório de 2010. Diário de Cuiabá - Como a senhora analisa o alto índice de violência contra a mulher de uma forma geral? Serys Slhessarenko - Eu diria que reduziu muito e que com a lei Maria da Penha o índice não está alto. Reduziu e a reincidência reduziu significativamente. Só que aparenta que aumentou a violência porque as mulheres antes não denunciavam e com a lei Maria da Penha estão se encorajando e denunciando. Então estão aparecendo mais casos e se pensa que está aumentando. Por exemplo, há estados que ainda não aparece muito essa questão da violência contra a mulher. Pernambuco aparece grandemente, como no ano passado, que foi a média de uma mulher por dia assassinada. Não é qualquer outro tipo de violência e sim assassinatos, então foram quase quatrocentas mulheres assassinadas no estado de Pernambuco no ano passado. E porque isso está aparecendo nesse Estado e não em outros como Mato Grosso, no Rio Grande do Sul e Amazonas e sim surgiu lá? Porque lá o movimento de mulheres está muito organizado, muito bom e está esperto para isso. Só que em outros estados não se tem esses dados estatísticos tão corretos. Essa situação de Pernambuco ocorre no país inteiro. Diário - A senhora é uma líder política em nível nacional, mas ainda é pequena a participação da mulher nesse contexto da política. Tanto, que no último pleito a maioria dos partidos teve enorme dificuldade para preencher a cota destinada às mulheres. No seu entendimento, porque a mulher não evoluiu mais nesse sentido? Serys - Isso é uma coisa histórica, cultural. A mulher não se envolve mais na política porque através dos tempos sempre foi dito que política era coisa de homem. E mudar a mentalidade para assegurar entendimento de que política é para homem e mulher em igualdade de condições não é fácil. Não só os homens viram que política é coisa para eles fazerem como muitas de nós, mulheres, também acham que política é coisa para os homens. Só que nossos direitos são tão desiguais... Ou seja, além da questão cultural, de que política é coisa para homem, ainda tem essa situação das tarefas. Dentro do nosso legado e a mulher conquistou, trabalhar e ajudar na melhoria econômica da família, mas os companheiros não vieram para dentro de casa na mesma proporção e aí sobraram as várias jornadas para a mulher. Diário - A senhora é um caso à parte na política mato-grossense, até porque não chegou ao cargo por conta da carreira política do marido. Mesmo aquelas mulheres que estão no poder por influência do esposo, nesse cenário, o que acha que elas podem fazer para estimular a participação da mulher na vida política? Serys - Eu cheguei na política sem parentes importantes... como é a música. Sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes. Cheguei por credibilidade conquistada junto à população. Eu emergi a partir de um trabalho que eu fazia na Universidade, um trabalho no interior também, mas pela Universidade Federal, e fui emergindo por aí. Diário - A que atribui a sua conquista? Serys - Isso faz parte de uma série de coisas, do trabalho que eu fazia junto à Universidade Federal, fui secretária de Educação da Capital, do Estado, então as pessoas me conheceram. Muitas vezes é a falta de oportunidade de as pessoas conhecerem outras que têm princípios importantes para serem defendidos na sociedade. Na primeira eleição minha para deputada estadual fui a terceira menos votada. Na coligação em que eu estava fui a menos votada, entrei por um triz. Aí na segunda eleição, sem fazer campanha, sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes na busca pela reeleição, fui a terceira mais votada. E isso do mesmíssimo jeito: sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes. Na terceira vez em que fui disputar fui a segunda mais votada, só perdi para um deputado e a partir daí, quando fui candidata ao Senado, que o partido me colocou na marra porque eu nem queria ser candidata ao Senado, mas as pessoas falavam “a gente gosta tanto dela, ela faz um trabalho legal, mas infelizmente é mulher, não vai conseguir nunca chegar ao Senado”. Nunca em Mato Grosso, historicamente, teve uma deputada estadual que conseguiu chegar ao Senado, era só ex-governador ou deputado federal que chegou ao Senado por Mato Grosso. E, no entanto, acabou dando no que deu. Então eu diria, para ser mais sintética, que é o tal do espelho. Isso é uma invenção da minha cabeça, nem sei se posso dizer assim. Mas espelho é a mulher se enxergando. Muitas vezes a mulher enxerga dificuldades, mas isso está mudando. Antes era um quarto das mulheres que votava em mulher e agora temos dados de que supera 50%. Diário - O que pode ser feito dentro da Reforma Política? Serys - Agora com a Reforma Política, eu discuti recentemente com a ministra Nilcéia, lá na Secretaria Especial de Políticas Públicas para as Mulheres. Almocei com a ministra, deputadas e senadoras. Três senadoras e umas quarenta deputadas e meu discurso foi justamente isso: que nós temos que prestar atenção na Reforma Política agora, porque é a hora de se pensar o que queremos. Precisamos saber se vamos discutir lista, se não vai. Essa história da lista é extremamente complicada, ela tem prós, mas também tem contras. Tem prós porque pode assegurar uma mulher e um homem e assim sucessivamente e garantir 50%. Na Espanha há pouco tempo, por exemplo, a vice-presidente era uma mulher e 50% dos ministérios eram compostos de mulheres. Em Marrocos, e até fui convidada para ir lá, o rei atual, um rei jovem, botou não sei quantas mulheres no ministério dele, etc. e tal. Então, ele abriu espaço para as mulheres de forma significativa. Tanto é, que já veio um ministro das relações exteriores de lá para conversar comigo para que eu vá lá contar experiências existentes no Brasil em termos de projetos de lei, de ações concretas. Essa posição do presidente Obama de ter salários iguais senão vai ter punição para a turma. A turma não sabe que aqui no Brasil tem um projeto de minha autoria, exatamente o mesmo que o Obama está fazendo lá e que o mundo inteiro aplaudiu. Mas meu projeto está lá numa gavetinha sem relatoria até hoje ainda. E vão dizer: “ah, mas isso está assegurado na Constituição brasileira e está na CLT”. Só que não tem punição, então a turma deixa para lá. Diário - O governo do presidente Lula em relação a outros governantes tem ampliado a participação da mulher? Serys - Com certeza. Só de ter criado a Secretaria de Políticas Públicas para a Mulher, com status de Ministério, além da lei Maria da Penha, enfim, é um trabalho que vem junto entre o governo e à organização de mulheres. Porque no Congresso Nacional nós somos poucas, senadoras são em torno de 10% ou 12%. Diminuiu porque a senadora Maria do Carmo está licenciada há praticamente um ano, a Roseana deve estar se afastando agora, a Marina está fora e voltou. Então, vira essa porcentagem. Mas na Câmara é menor ainda: 8%. A Câmara não consegue emplacar uma mulher na Mesa Diretora, de jeito nenhum. O Michel Temer teve recentemente na nossa sessão solene, junto com o presidente Sarney. E o deputado Michel Temer, presidente da Câmara, falou que vai fazer todos os esforços para que a mulher tenha participação mais efetiva em alguns cargos e que chegue à Mesa Diretora da Câmara. Diário - Como é o dia-a-dia no Senado em relação à luta das mulheres? Serys - Lá no Senado a gente briga, tem um projeto de lei que obriga a ter uma participação mínima de mulheres. A gente força tanto a barra, que eu acabei virando uma vice-presidente lá. Agora, os movimentos organizados da sociedade têm contribuído muito, mesmo. A legislação apoia as mulheres em todos os sentidos, como contra a violência através da lei Maria da Penha. Eu também coordeno a bancada feminina no Senado e coordeno as questões de mulher, os projetos de lei que tratam da mulher. A gente se reúne e fecha questão, independente da coloração partidária. E aí cada uma vai para a sua bancada para convencer os companheiros homens a nos ajudar a aprovar. Por isso teve um rendimento muito bom de aprovação de projetos importantes. Além da lei Maria da Penha, como na área da saúde, que garante o direito a mulher com mais de 40 anos requerer junto à saúde pública o exame de mamografia e de câncer de colo de útero, uma vez por ano. Tem também outros projetos pequenos. Tem nome de mulheres no Senado em vários espaços e antes não era assim. São coisas pequenas, simbólicas, mas que tem importância. Diário - Qual o conselho ou orientação que a senhora dá para os novos gestores para que possam colocar as mulheres em cargos compatíveis com sua qualificação que muitas vezes são ocupados por homens? Serys - É preciso se aperfeiçoar ainda mais, ser ainda mais preparada que o companheiro homem para conseguir isso. É necessário se preparar, se aperfeiçoar, trabalhar com seriedade profissional. E batalhar pelos cargos. O espaço da mulher ainda está muito pequeno, tem muitas juízas, por exemplo, mas vamos analisar os postos de ministra, os espaços nos tribunais superiores... É pouco! Diário - Em relação ao Programa de Eleição Direta, o PED, do PT, a senhora tem intenção de disputar novamente a presidência do partido no Estado? Serys – Não! Com certeza, vamos disputar, mas não precisa ser com o meu nome. Estou muito ocupada. Essa vice-presidência do Senado realmente é uma ocupação muito maior, eu nem podia estar aqui hoje, para se ter uma idéia. É mais difícil, porque o presidente não estando lá tem de estar o senador Marconi Perilo e se ele não estiver, eu tenho que estar. É uma situação difícil. Eu presidi uma sessão de três horas e, em compensação, na outra na pude ir porque estava supersobrecarregada. Diário - Pleito de 2010. A senhora disse que iria para a reeleição. A senhora mantém isso? Serys - Só penso em reeleição, não penso em outra coisa. Eu estou buscando a reeleição ao Senado. O Abicalil é um ótimo candidato, tem ele e também tem que discutir com os partidos da base. É uma coisa muito mais ampla. Diário - E como analisa 2010? É defensora de que o PT tenha candidato ao governo? Serys - Acho que é importante o PT ter candidatura própria, mas tem que vir dentro de um arco de alianças, porque sozinho fica difícil. A gente vai ver se consegue candidatura própria com apoio de outros partidos, mas essa discussão ainda é muito incipiente. O PT vai começar a discutir isso no segundo semestre. Diário - Um recado para todas as mulheres em relação a essa data especial? Serys - Que todos os homens e mulheres se unam nessa busca de construção de uma sociedade com direitos iguais. E que as mulheres realmente levantem a cabeça e não se aceitem sofrer nenhum tipo de discriminação nem de violência. Contra a violência o remédio é a denúncia e contra a discriminação o remédio é a organização. As mulheres estão fortalecidas também na parte da legislação. Mas também os estados e os municípios devem se organizar cada vez mais. E que como a gente já tem a lei de cotas para as eleições proporcionais, que é importante mas não basta, que busquem conquistar mais espaço para ampliar o espaço político das mulheres. Também é preciso abrir mais espaço em todos os setores: além do profissional, o respeito dentro da família, é por aí. Diário - Como analisa a defesa de um grupo de homens que entende que a Lei Maria da Penha deveria também valer para eles? Serys - Não, isso é piada. Existem casos raros em que uma mulher agride um homem. Eu digo que isso é muito raro e mesmo quando isso acontece praticamente a totalidade é em termos de defesa, o que não justifica. Eu não quero jamais virar a moeda. Sair de oprimida para opressora. Se for para isso, não conte comigo. Então, fica essa história de que porque tem Maria da Penha, entre aspas, a mulher fica abusada e acha que está podendo afrontar e fazendo qualquer tipo de violência contra o companheiro, porque se ele triscar nela tem a lei Maria da Penha. Não, não é por aí. Eu acho que é preciso mudar a mentalidade, tem de saber que os homens não podem cometer nenhum ato de agressão contra as mulheres, porque elas também não podem cometer atos de agressão contra eles.

Edição EDIÇÃO 16964




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