Graças às câmeras dos circuitos internos dos prédios de Brasília, a velha máxima segundo a qual nas guerras a primeira vítima é sempre a verdade perdeu o prazo de validade no 8 de janeiro.
Quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas pela turba bolsonarista, as lentes dos sistemas de vigilância presentearam a história com registros definitivos.
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Neles, a verdade tem uma aparência muito mais incrível do que a ficção.
A divulgação tardia dos vídeos do Planalto reforça a percepção de que é impossível inventar qualquer realidade alternativa em relação ao maior ataque à democracia brasileira desde a redemocratização.
Veja vídeo:
No caso do Planalto, as câmeras flagraram duas verdades indesmentíveis.
A primeira é que o Governo Lula, instalado havia uma semana, sofreu uma tentativa de golpe insuflada por Bolsonaro.
A segunda é que o aparato de segurança da Presidência oscilou entre a incompetência do general Gonçalves Dias, então chefe do Gabinete de Segurança Institucional, e a cumplicidade de militares com os invasores.
Militares que GDias, como é chamado o general amigo de Lula, herdou do antecessor Augusto Heleno e não teve a perspicácia de substituir.
As outras cenas ajudam a compor o quadro: a porta do Planalto aberta para os invasores, o general aparvalhado em meio aos criminosos, o subordinado servindo água aos golpistas, um patriota bolsonarista tentando arrombar um caixa eletrônico, Lula vistoriando os destroços, Flávio Dino expondo com gestos bruscos suas divergências civis com o gestor de fardas José Múcio...
As câmeras potencializam os constrangimentos. Mas não fornecem material aos que desejam reescrever a história.
Bolsonaro e sua milícia legislativa enxergaram no esconde-esconde a que a gestão Lula submeteu os vídeos do Planalto uma oportunidade para construir uma ficção menos constrangedora.
O Planalto poupa o seu general de críticas e unifica posições em torno das versões mais convenientes.
A CPI a ser instalada no Congresso será transformada numa guerra de desinformação.
Nesse ambiente, as câmeras dos circuitos internos de Brasília ensinam que o melhor a fazer é desconfiar.
A verdade escancarada pela visão isenta das câmeras de vigilância funciona como vacina contra as fantasias.




