MUNDO
Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012, 19h:24
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TENSÃO NO ORIENTE
Eleições pode aumentar tensão no Irã
Se parlamento radical for eleito, liderado por aliados de Khamenei, golpe de governo é previsível, segundo analistas estrangeiros
Os ataques ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e seu entorno, por parte dos ultraconservadores do regime islâmico, fiéis ao líder supremo, Ali Khamenei, aumentam com a proximidade das eleições legislativas do próximo dia 2 de março, que podem provocar uma maior radicalização do país. Se o pleito confirmar um parlamento ainda mais radical, liderado pelos aliados de Khamenei, é previsível um golpe de governo em matéria econômica, política e social, e, sem dúvida, uma política externa mais inflamada contra os dois grandes inimigos do Irã: Estado Unidos e Israel. Poderiam inclusive cessar as tímidas tentativas de abertura do ministro de Relações Exteriores, Ali Akbar Salehi, e outros membros do Governo ao Ocidente, especialmente com a União Europeia (UE), dada a postura beligerante dos mais radicais. Khamenei, o homem que controla a política do Irã desde 1981, primeiro como presidente e desde 1989 como líder supremo, após a morte do fundador da República Islâmica, aiatolá Ruhola Jomeini, tem uma especial aversão aos ocidentais, que nunca fez questão de esconder. Os poderosos clérigos xiitas e os comandantes militares, especialmente os surgidos da Revolução e da guerra com o Iraque (1980-1988), sabem que a via de enfrentamento ao Ocidente é a mesma do poder. Por isso, na questão nuclear, as diferenças sobre as condições de supervisão de suas instalações atômicas com a comunidade internacional podem aumentar e causar mais dúvidas no Ocidente sobre as intenções de Teerã, o que agravaria um conflito já preocupante. A UE e os EUA reforçaram suas sanções ao Irã pela suspeita que seu programa nuclear pode ter uma vertente armamentista, enquanto Washington e Tel Aviv ameaçaram realizar ataques militares, o que poderia iniciar um conflito de consequências imprevisíveis em uma região fundamental para a provisão de energia ao mundo. Em qualquer caso, a campanha, iniciada no dia 23 de fevereiro e pela qual nem a população nem o governo demonstram interesse, podem ser consideradas um combate interno dentro do sistema islâmico. Os seguidores de Khamenei, os principalistas que dominam o Parlamento e defendem as essências islâmicas xiitas do regime, tacharam o entorno de Ahmadinejad de desviacionista e de pôr em dúvida a preeminência religiosa no sistema. Por outro lado, presidente e seus seguidores levaram sua pré-campanha às províncias e especialmente ao meio rural, onde pretendem conseguir uma substanciosa representação nas 290 cadeiras do Parlamento, o que seria uma surpresa para os principalistas. Se os avais parlamentares de Ahmadinejad caírem tanto como esperam os seguidores de Khamenei, o presidente teria um duro caminho até as eleições presidenciais de 2013, às quais não pode candidatar-se após dois mandatos e nas quais teria poucas possibilidades de eleger um de seus aliados. Esse quadro poderia levar Ahmadinejad ao ostracismo, se não a uma situação pior, como ocorreu com vários de seus antecessores. Desta vez, até o cargo de presidente correria perigo, pois Khamenei advertiu que, com uma mudança constitucional, o país poderia passar do presidencialismo ao parlamentarismo, com um primeiro-ministro designado pelo legislativo, muito mais maleável que um presidente eleito por voto universal direto, como o atual. Antes de iniciar um recesso até o fim das eleições, o atual parlamento, que seguirá vigente até junho, convocou Ahmadinejad para uma sabatina no dia 5 de março, na qual devem apontar supostas irregularidades econômicas que poderiam resultar em uma moção de censura. Se a sessão terminar assim, Ahmadinejad sofrerá a humilhação de ser o primeiro presidente iraniano interrogado pela Câmara, que lhe perguntará, entre outras coisas, sobre o desfalque de US$ 2,6 bilhões em bancos públicos.