ILUSTRADO
Sexta-feira, 17 de Janeiro de 2014, 21h:02
A
A
A DESBRAGAR
Vilas, poetas e glórias
Matheus Jacob Barreto, poeta cuiabano, é comparado a Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade por doutor da Universidade de São Paulo
Rodivaldo Ribeiro
Da Redação
Quando um patrício se vai para além das fronteiras de minha província, naturalmente meu sangue em grande parte português tem por hábito preocupar-se de, com ele, esvair-se um pouco da minha própria identidade. Um certo temor de ver, após despedidas várias, um tanto do que nos compõe como semelhança, na pátria chamada cultura humana, ser sobejado ao ponto de, armadilha cruel, convencer-nos de uma ilusão de fartar-se em sabores diferentes e, após tanto, ser expugnado pra sempre de si. Em suma, misturam-se o medo de ser esquecido como identidade própria sim, mas essencialmente como um todo em minha língua. Essencial e altivamente minha íntima pátria. Lembra do sotaque cuiabano, tornado motivo de vergonha para muitos e durante décadas diminuído por outros até esta sobrevida moribunda reservada a ele? É mais ou menos disto que este texto quer falar. E tudo porque certas vezes patrícios deixam a terra pra bradar ainda mais forte e aqui já não importa mais em qual idioma e nem a forma a mesma tal identidade, esse negócio esquisito de definir e, mais ainda, verbalizar. Nessas horas, passado qualquer receio, dá um orgulho danado de ser cuiabano. É o que vem acontecendo já há um certo tempo com um rapaz de 21 anos, de nome Matheus Jacob Barreto. Ele resolveu ignorar o velho Kant e seu temor de deixar a vila natal e seus tão mais confortáveis, mas não menos difíceis, viveres e saberes da terra-mãe. E chegou chutando. Não bastassem os três livros publicados, resolveu ir além: recebeu reconhecimento dos altos habitantes da maior cidade da América Latina. Tarefa difícil? E se for com poesia então, essa ensinou Wilde , tão nobre e demasiado inútil arte? Daqui em diante, você lê o que encontrou em Matheus o professor doutor Nelson Barbosa, do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo. Evoé, poeta! Em seu livro Seis propostas para o próximo milênio, Ítalo Calvino (1990) pronuncia sua confiança no futuro da literatura, que para ele consiste em saber que há coisas que só a literatura com seus meios específicos pode oferecer. Mas diante de tantos avanços tecnológicos, dos estranhos valores do homem do novo milênio, da propalada e esquizofrênica pós-modernidade, ou mesmo diante da aridez das comunicações humanas perdidas nos imensos ruídos superpostos quando não no obsequioso silêncio de uma violência generalizada, pautada pelo primado da imagem visual sobre as palavras, do ter sobre o ser, da acumulação e do vazio perenes
, que lugar teria a literatura na vida desse homem? E a poesia, por onde estaria ela vagando, se é que subsiste, se por todo lado grassa essa turbulência da contemporaneidade e suas infinitas incompreensões, as inversões de valores e tantas inusitadas formas de expressão que já nascem praticamente mortas, quando não desgastadas e vazias, ou liquefeitas, como diria Bauman (2001)? Ou seja, Literatura para quê?, como indaga Antoine Compagnon (2012) em seu também manifesto de amor à literatura. Essas questões, por incrível que possa parecer, não povoam apenas as dúvidas das pessoas comuns em relação ao que conhecem e entendem de literatura, pois para elas parece não ser mais possível falar em poesia, em literatura nesses tempos atuais que em nada suscitam tais sensações e sentimentos. Povoam também, e com certa frequência, o universo dos estudantes de Letras, que se iniciam nesses estudos de certa forma descrentes do que podem ainda descobrir a esse respeito, acreditando já terem assimilado nos estudos médios tudo o que se poderia saber sobre literatura. Ledo engano! Ao chegarem, pois, à universidade, muitos se chocam com o que ouvem ou leem, ora porque não admitem abrir mão de suas ideias preconcebidas e sólidas (de novo Bauman?) a respeito da literatura, ora porque felizmente a descobrem então de um modo como não ousariam de fato antes supor, o que parece vir confirmar a confiança de Calvino e também a de Compagnon, como de resto a dos críticos e escritores para quem a literatura de fato ainda diz muita coisa não só do homem de ontem como ainda, sobretudo, pode dizer muito do/ao homem de hoje, ou mesmo de amanhã, se nos for possível imaginar algo do que pode ainda nos vir pela frente. Quem, entre tantos outros críticos e estudiosos, nos explica esse verdadeiro fenômeno da literatura e sua (sobre)vivência/eternidade é Leyla Perrone-Moisés (1990), que num texto do final da década de 1980 já ensinava que a literatura nasce de uma dupla falta: uma falta sentida no mundo, que se pretende suprir pela linguagem, ela própria sentida em seguida como falta. A primeira das faltas sentida tem a ver com o mundo insatisfatório em que vivemos, pois já nascemos sentindo a falta de algo e caminhamos ao longo da vida para um final do qual nada sabemos. E essa insatisfação vivencial nada tem a ver com as características da contemporaneidade antes lembradas, pois no século XIX Flaubert citava São Policarpo, um mártir do século II da era cristã, que dizia: Meu Deus, em que século me fizestes nascer!, sentimento retomado pelo escritor francês dezessete séculos depois. A outra falta é de que a literatura não trabalha com um real prévio que se pretende representar, como se acreditava antes, mas sim com a linguagem que o instaura. Diz Leyla Perrone-Moisés (1990, p.102): A literatura, felizmente, continua existindo, apesar de não acreditarmos mais na possibilidade de a linguagem representar ou expressar um real prévio, criar, inventar ou produzir um objeto que seja autossuficiente ou, pelo contrário, reabsorvido e utilizado pelo real concreto. A literatura parte de um real que pretende dizer, falha sempre ao dizê-lo, mas ao falhar diz outra coisa, desvenda um mundo mais real do que aquele que pretendia dizer. Daí, por certo, termos iniciado este texto lembrando a confiança de Calvino na literatura, porque só ela, com seus recursos próprios, permite que o poema se faça nessa perspectiva de sempre trazer em si a ideia de algo que pode de algum modo minimizar a falta que sentimos no mundo, ou o desconforto de nele estarmos sem dele de fato sabermos. E é por via desse arranjamento de sons, de palavras, de pontuação, de imagens sonoras e mentais, de um ajuntamento mágico desses signos que o poema se constrói para contar ao homem o seu mundo, a sua história, o seu sentir/viver. E o poema, como nos ensina Manoel Bandeira, se faz nesse ajuntamento inusitado de palavras e sons que causam aquele rumor, aquele estranhamento que nos faz parar, querer saber mais, entender, sentir, mergulhar nas suas águas, onde encontraremos a chave que abre suas portas, sua mensagem por certo mais secreta. Essa reflexão inicial a respeito da literatura vem nos lembrar que, a despeito de todas as dificuldades de ver poesia na nossa contemporaneidade, ela no entanto persiste (amém), existe forte e viva, e floresce como sempre o fez nas mãos férteis dos poetas dispostos a cultivá-la como sua forma de comunicar com o mundo, com o homem seu semelhante, dizendo-nos coisas que nossas retinas fatigadas por vezes não conseguem ver, que nossos sentidos embotados por vezes não conseguem mais sentir. Foi assim que me caiu nas mãos o livro de poemas É, de Matheus Jacob Barreto, ainda um jovem poeta que naquele momento de profissão de fé na literatura pronunciada por Calvino ainda nem chegara a este mundo, mas que com rara sensibilidade soube captar, a despeito da crise contemporânea da linguagem, as seis qualidades que somente a literatura poderia salvar, segundo Calvino: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência, virtudes que pontuariam pela literatura a existência humana no novo milênio que é o tempo de Jacob Barreto, e nosso também. O pequeno espaço deste texto, por certo, não nos permite desenvolver maiores análises de poemas de Matheus Jacob Barreto cuja poética ainda em formação já aparece com força neste seu terceiro livro, ainda que o poeta não reconheça nos dois livros anteriores uma sofisticação da linguagem e uma elaboração maior da matéria poética que este de fato apresenta. Isso porém não significa que o diálogo com a tradição de nossa poesia não existisse naqueles primeiros livros. E esse diálogo, é importante ressaltar, justifica aquela nossa ideia da literatura como uma construção linguística que revela a intenção do poeta de expressar o seu desconforto em relação à realidade e sua necessidade de compreendê-la, ora mais, ora menos sofisticada pela construção linguística obtida pelo poeta no seu ofício de nos mostrar o mundo. O poema cujos versos finais destacamos aqui como epígrafe revela, a título de exemplo que escolhemos, um caminho pelo qual certamente segue a poética de Matheus Jacob Barreto: Ando querendo abrir os quadrados dos meus poemas. Ando claustrofóbico de seus quatro lados, e então abro um dos [cantos para entrar ar luz cheiros e terra. Ando abrindo o fecho da abertura porque eu preciso de tudo o que puder porque eu preciso de tudo o que puder no poema E aqui em mim. A construção perturbadora do poema indica podemos sugerir um eu poético que se mistura com o poema na busca de ar, de espaço, de luz, de vida; enfim, que se desprende das linhas claustrofóbicas tanto de um poema rimado/ritmado, como, por certo, de um viver que restringe experiências, restringe vivências e passos mais largos, saltos no escuro, na terra que se estende em estrada. Daí a necessidade de abertura para que o poema e o poeta experimentem ar, luz, cheiros e terras que o chamam, que o exortam à vida (de fora). A imagem poética assim percebida em muito também se associa a um nascimento, um vir à luz, ou como algo que, contido numa estrutura, carece de uma expansão. O verso abrindo o fecho da abertura revela um sofisticado jogo linguístico ao trabalhar com o campo semântico do fechar e abrir, para revelar que a abertura se abre pelo fecho, num jogo de antíteses que justificam a ideia da claustrofobia do eu/poema poematizados. Mas não só por isso, pois se percebe que os termos abrindo e abertura, além de fazerem soar a mesma sonoridade fonética em b e r como o som da aliteração que recupera a ideia de algo que se quebra, que se rompe (b/p/m são bilabiais), agasalham o termo fecho (como não perceber o som fechado/contido de ê/o da assonância ali presente?) como algo que está dentro, contido, e que precisa sair pela ação do que se quebra, se rompe como um ovo (um palíndromo) que concentra a vida e precisa se quebrar/romper. A ideia do duplo então aventada, ao que se percebe, é retomada de modo literal e redundante na própria repetição do verso que segue: porque eu preciso de tudo o que puder, e por fim a revelação de que o duplo se marca em relação ao verso que se relaciona com o poema em si e com o aqui em mim (mim, aqui novamente a retomada do palíndromo que marca uma unidade em si independentemente da direção que se leia). O título do poema Canção de aceitação do poema parece, de algum modo, legitimar esse caminho de leitura. Trata-se de uma canção, entoada por um eu (poeta/cantor) que aceita o poema, ou então que se aceita dentro deste poema e que ambos precisam nascer, romper-se, para ganhar ar, luz, crescer, ganhar o mundo, seguir seu caminho, e assim nasce o poema / e assim nasce o ser, o homem novo. Essa concisão linguística que abraça um fazer poético mas também um fazer-se ser/homem é uma das maiores riquezas da elaboração literária na fatura do poema. É dessa forma, enfim, que, ao construir em si tal imagem e linguagem o poeta (particular) fala ao outro (universal), ao homem de seu tempo, de seu passado, de seu futuro. Enfim, a poesia nos dizendo de novo tudo o que precisamos ouvir. Assim se constrói aquilo que, segundo Leyla Perrone-Moisés (1990), Valéry define como a hesitação entre o som e o sentido no fazer do poema, porque na mônada do poema, o mundo fica momentaneamente cifrado, a captação do particular insinuando que uma plenitude do mundo é desejável e possível. Certamente, não é fácil ler um poema, pois sua leitura exige desprendimentos, leituras contínuas, em voz alta ou em voz baixa, em sussurros. Sobretudo, é preciso conviver com um livro de poemas, permitir-se penetrá-lo, porque, segundo o também poeta Eucanaã Ferraz, Ali está tudo fora de lugar. Não é sujeito, verbo e objeto. É a subversão da ordem, da sintaxe, dos códigos. Ali é onde as palavras se encontram pela primeira vez. E isso é perturbador. Mas também não se faz um poema apenas por uma inspiração ou desejo, e sim debruçando-se sobre essas potencialidades da língua, dos sons, das imagens a serem reunidos numa construção que passa a fazer sentido pela poesia neles depositadas. E nisso, sem dúvida, reside a grandeza da poesia de Matheus Jacob Barreto, pelo seu total empenho e dedicação para com a organização desses elementos poéticos na feitura de seus poemas. Primeiro ou terceiro livro seu, não importa, a certeza que fica, apesar da rápida leitura aqui desenvolvida, é que, ainda que bem jovem e isso é um indicativo de que muito ainda se ouvirá e se lerá dele , Matheus Jacob Barreto já desponta na literatura brasileira como um poeta pronto, um poeta que conhece muito bem seu ofício e que sabe, como poucos hoje, em meio a todos os ruídos contemporâneos, reunir/juntar rumores, sons e palavras, sentimentos e sentidos que interessam à literatura, limpando-os, polindo-os, transmutando-os em verdadeiros poemas, de verdadeira poesia. Matheus Jacob
, Drummond, Bandeira, Cabral, Vinícius
e tantos e tantos outros, de ontem e de hoje, lhe mandam lembranças carinhosas e boas-vindas! Eu também! Referências BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Edit., 2001. COMPAGNON, A. Literatura para quê? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012. CALVINO, I. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Cia. das Letras, 1990. FERRAZ, E. Entrevista, s. d. Disponível em: