ILUSTRADO
Sábado, 08 de Agosto de 2009, 12h:42
A
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RESENHA
Uma metaexposição interpretativa
Luiz Moreno*
Especial para o Diário de Cuiabá
Recebi uma carta de rompimento. É a frase que inicia uma peculiar exposição em São Paulo, aberta recentemente. E não soube respondê-la. Era como se ela não me fosse destinada. As frases são de Sophie Calle e a carta de seu ex-amante, o escritor Grégoire Bouillier. Tudo passava como mais um fim de relacionamento que já não ia bem, até que Sophie resolve fazer da carta um espetáculo, do privado algo público. A autora convidou 107 mulheres, duas marionetes e um papagaio para que lhe ajudassem a entender a tal carta. A condição é que a carta seja interpretada do ponto de vista profissional. A dançarina deve coreografar a carta; a advogada deve analisá-la sob os aspectos jurídicos; a cantora, cantá-la; a cartunista, desenhá-la... Analisá-la, comentá-la, dançá-la, cantá-la. Esgotá-la, era o pedido de Sophie, que filmou e/ou fotografou cada uma das interpretações. O que vemos na exposição, que está percorrendo o mundo, é a soma dessas performances e interpretações. Lá encontramos: Se ele a ama, por que ele está deixando ela? Estudante, de 9 anos. Amante rompe e afirma que motivo é respeito pelo pacto inicial. Honestidade ou covardia? - Subeditora- Chefe. (...) ele optou por expressar sua decisão unilateral por escrito, como se estivesse preocupado que uma discussão ou confronto com a protagonista pudesse minar sua determinação de terminar o relacionamento. Diplomata. Não precisa fazer muito drama. O seu amor durou apenas 3 ou 4 estações e vocês nem sequer chegaram a morar juntos. Se você tivesse ficado 25 anos com um homem e depois fosse trocada por uma garotinha por causa da crise da meia-idade, essa seria uma situação clássica, e muito mais dolorosa. Pense que o que você tem em mãos é o melhor tipo de carta. Mãe de Sophie. Não há consenso entre as leituras. As mulheres não formam um coro para difamar o escritor. Nem tentam consolar Sophie. Trata-se de analisar um objeto: a carta. Mas parece ter algo além nesta exposição. Ao entrarmos, recebemos a carta, que, por si só, não nos diz nada. À medida que percorremos a exposição, vamos colhendo diversas formas de lê-la, de interpretá-la. Assim ficamos com a estranha sensação de que quem fornece o sentido à carta é o receptor, enquanto ela, em si, está esvaziada. O que nos lembra os antigos testes projetivos (Rorschard, por exemplo), no qual mostramos uma prancha manchada e perguntamos: o que você vê aqui? ou o poema de Helena Kolody: No poema /e nas nuvens /cada qual descobre /o que deseja ver. Assim a exposição não é sobre amor, rompimento ou luto, ainda que estes assuntos apareçam. Trata-se da temática da interpretação. Cada mulher convocada torna-se uma artista e cabe a cada uma fazer uma leitura singular da carta. Somos, assim, jogados no universo da pluralidade dos sentidos. Uma pequena mudança na direção do olhar no interior da exposição e ganhamos uma outra visão. Uma só carta, dezenas de interpretações. Ao que me parece, a exposição de Sophie Calle responde esta pergunta: O que é interpretar? E a resposta vem de maneira simples, ainda que brilhante: Interpretar é matizar as coisas com as tintas da nossa paixão. Ou seja, colocar algo de si, ou cuidar para que algo de si apareça. O nome dado a exposição, que corresponde à última frase da carta, é: Cuide de você. Para quem se interessar: www.sophiecalle.com.br Luiz Moreno Guimarães Reino é cuiabano, psicanalista, reside em São Paulo e colabora com o Diário de Cuiabá