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ILUSTRADO
Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013, 20h:24

RESENHA

Um mundo marcado pela superficialidade

Obra do filósofo grego Epicuro critica a forma como as pessoas se distanciam da felicidade e correm atrás de bens supérfluos e passageiros

Jacir Alfonso Zanatta*
Especial para o Diário de Cuiabá
O livro “Carta sobre a felicidade” de Epicuro, editado pela Unesp impressiona pela clareza das idéias e por mostrar de forma simples o quanto muitas vezes nos distanciamos do essencial e corremos atrás do supérfluo. O opúsculo com apenas 51 páginas e em edição bilíngüe (português e grego) versa sobre a conduta humana tendo em vista alcançar a tão almejada saúde do espírito. A filosofia é considerada desde logo como uma disciplina cuja única meta é justamente tornar feliz o homem que a pratica, de tal modo que este deve cultivá-la durante todo o transcurso da sua existência, desde a mais tenra juventude até a idade mais avançada. Vemos assim, que o que importa para a doutrina epicurista, não é a duração, mas a qualidade da vida. Epicuro repelia veementemente o determinismo e o fatalismo. É bom lembrar que o epicurismo sobreviveu por cerca de sete séculos no mundo greco-romano, tendo encontrado em Lucrécio, Sêneca e Cícero seus mais ilustres discípulos tardios. Observa-se na carta, que o prazer, como bem principal e inato, não é algo que deva ser buscado a todo custo e indiscriminadamente, já que às vezes pode resultar em dor. Do mesmo modo, uma dor nem sempre deve ser evitada, já que pode resultar em prazer. Quem sabe seja por idéias como estas que sua doutrina, de forma grotesca, quase sempre seja confundida com o gozo imoderado dos prazeres mundanos, como se não se distinguisse do hedonismo puro e simples. Endereçada a Meneceu, um de seus discípulos, a carta começa com uma exortação ao estudo da filosofia, útil tanto ao jovem quanto ao velho. Sobre a filosofia Epicuro (2002: 21) esclarece “que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito”. Um pouco mais adiante, Epicuro (2202: 23) faz um alerta: “é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la”. A busca constante pela felicidade é o ponto chave do livro. A morte para Epicuro é apenas a privação das sensações e a morte não significa nada. Ele acredita que quando estamos vivos a morte não está presente e quando a morte está presente, nós é que não estamos. Por isso, não há nada a temer. Por esta razão, a posição do sábio deve ser de não desdenhar viver e nem deixar de viver. Com isso, viver não deve ser visto como um fardo e não-viver ou morrer não deve ser visto como um mal. Nossas ações devem ser praticadas de uma forma tal que nos afaste da dor e do medo. Para Epicuro, conhecer os próprios desejos ajuda na serenidade do espírito, finalidade da vida feliz. O autor defende que o prazer é o inicio e o fim de uma vida feliz. Se ele estiver certo, e acredito que está, o mundo moderno então, está fora de rota. Segundo ele, tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil. E como tudo para nós atualmente parece difícil, significa que estamos correndo atrás do que é inútil, nos esquecendo das coisas úteis. Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como também proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida. É interessante observar como o pensamento dele foi sendo deturpado ao longo dos anos. Quando ele defende que o fim último é o prazer, ele não está se referindo aos prazeres dos sentidos, mas a ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. No entanto existe algo mais precioso do que a própria filosofia. Segundo o autor, a prudência é o princípio e o supremo bem, de onde vêm as demais virtudes. Para Epicuro as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável destas. O AUTOR Epicuro nasceu em 341 a.C, na ilha grega de Samos, onde passou a infância e a juventude, iniciando os estudos de filosofia com Pânfilo, filósofo platônico cujas lições seguiu dos 14 aos 18 anos. Em 322, após a morte de Alexandre Magno, o sucessor deste decide expulsar de Samos todos os colonos atenienses, entre os quais a família de Epicuro. Com isso, Epicuro passa a acompanhar os ensinamentos de Nausífanes, filósofo atomista que o inicia no pensamento de Demócrito. Entre 311 e 310 a.C, tenta fundar outra escola em Mitilene, na ilha de Lesbos, mas é impedido pelos aristotélicos. Muda-se então para Lâmpsaco, nos Dardanelos, onde também entra em choque, desta vez com os platônicos, mas consegue assim mesmo instalar uma escola. É em Lâmpsaco que conquista seus adeptos mais ilustres, que passarão a acompanhá-lo pelo resto da sua existência: Hermarco, Colotes, Metrodoro, Pítocles e Heródoto. Em 306 a.C, Epicuro regressa finalmente a Atenas, onde adquire uma ampla casa logo acrescida de uma grande jardim, para o fim exclusivo de instalar aquele que viria a ser sua célebre escola ateniense. Após a morte de Epicuro, aos 72 anos de idade, em 270 a.C, foi o Hermarco quem o sucedeu na direção da escola. EPICURO. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). São Paulo: Unesp, 2002. 51p. *Jacir Alfonso Zanatta é jornalista, reside em Campo Grande (MS) e colabora com o DC Ilustrado

Edição EDIÇÃO 16961




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